A mãe do Roberto

- mas ela é surda.

já estava alto. o pessoal tinha agitado uma festona na escola, na escola inteira. eu nem estudava lá, mas estava lá. toda escola tem escadas e todo mundo gosta de ficar nas escadas porque escadas são um excelente lugar para sentar e sentir-se mais íntimo e intimidade é o que todo mundo quer numa festa. a escada estava lotada. os corredores, a rua, a cuca.

numa das salas tinha uma banda de rock sem público. os caras estavam fazendo uma jam psico-eterna. na outra sala dançavam qualquer música. a mistura dos dois sons preenchiam o ar como uma gritaria. a noite nem tinha começado, podia ser dez da noite, podia ser quatro da manhã, podia ser ontem e nunca.
a banda tinha encerrado sua eternidade. só a sala dançante mantinha a música no volume perfeito para todo mundo ficar contente e bater papo e beijar e tatear e procurar.

de repente o som pifou, primeiro um silêncio de meio segundo e na metade seguinte gritos e uivos e urros e vaias. botaram a banda pra tocar. só então percebemos que a banda era ruim e tocava um punk ruim, o que poderia ser bom, mas geralmente quando uma banda punk ruim começa é porque virá outra e mais outra, todas péssimas, mas uma variedade de ruindades o que gera uma estética sonora inviável. naquela noite só havia uma banda, mais biltre, impossível. mas e daí?
escuto meu nome vindo de longe, é o Roberto.
- cara, você e o Valmir vão lá em casa com o meu carro, pegam meu som, deck, ampli, pre-ampli, equalizador, falantes, tudo. minha mãe tá lá, não tem erro.
- porque você não vai?
- porque já to muito chapado.
- eu também to chapado, Roberto.
- mas o Valmir é crente, não bebe.
- então eu vou.
nessa hora o Roberto pegou um papel qualquer e escreveu o endereço, entregou pro Valmir. depois olhou sério para mim, pelo menos tentou olhar sério e disse:
- mas ela é surda.
- quem?
- a minha mãe. ela é completamente surda.
- e dai?

catamos a Belina podre e chegamos no Bexiga. a casa dele era uma casa muito casinha do interior para o meu estado mental e para estar ali no Bexiga, mas São Paulo tem dessas. abrimos a portinha de muros baixos e entramos, as janelas estavam acesas. tentei tocar a campainha e Valmir me encarou atônito com cara de pra quê? rimos. fomos até a varanda e olhamos pela janela lateral, a velha estava rezando, de costas para nós. fudeu.

e rezava para a mãe e o menino Jesus silenciosos. batemos no vidro, na porta, até quase derrubarmos a parede e o bairro. e ela rezava. e balançava o corpo para frente e o Valmir teve a maravilhosa ideia de colocar o carro de frente para a casa e ficar piscando os faróis e foi lá fazer isso.

mas ela rezava de olhos fechados.

ficamos um bom tempo piscando os faróis. voltei pro carro e ficamos piscando os faróis. cigarros, xixi no poste e faróis. finalmente, ela apareceu na janela, acenou, fomos correndo. ela mostrou um cartão:

SOU SURDA E MUDA. FALE DEVAGAR PARA QUE EU POSSA LER SEUS LÁBIOS. OBRIGADA.

tinha o nome dela no papel, faz muito tempo, já esqueci. expliquei a situação. ela sorriu e fez sinal para entrarmos, a acompanhamos até o quarto do Roberto, catamos as traquitanas.

na varanda ela apontou pro carro e riu tipo "ah, o carro do Beto".

voltamos para a escola e o Roberto estava em qualquer lugar com alguém. ligamos o som, botamos um disco e a festa foi até as quatro da manhã, até ontem, até nunca.






Um comentário:

Rita Almeida Pinto disse...

Viajei... rsrsrsrs
(adoro suas narrativas)