No tribunal dos que não voam

Não pode ficar triste. De todas cláusulas que acertamos nesses dias todos e debatemos e votamos e até gritamos e pulamos aplaudindo nossa unanimidade, ficar triste é uma bobagem, um crime lesa umbigo.

Mesmo hoje, nublado como um almoço de coveiro, cabem momentos especiais no quintal de céu cinza isento da esturricação do sol.

Gaste o cotovelo no muro. Fique horas no portão olhando as pessoas irem e virem, outras voarem, algumas não aparecerem.

Leve uma caneca de café quente bem amargo e cheiroso para mudar a vida dos passantes pelo nariz. É melhor ficar silencioso e ocioso e ver a banda passar, mas triste não.

Na vitrola deixe tocando um velho e bom pianista de New Orleans por toda a eternidade até aprender a falar e cantar com o sotaque dos colhedores de algodão do Delta do Mississippi.

Mas triste, não. A tristeza apaga o sol da alma. O sol da alma cintila nos gestos, no sorriso. Um sorriso, uma caneca de café cheiroso e palmas de blues, não há quem resista a tal alegria. Aproveita e dança. Aumenta o volume e dança até ficar levinho de quase flutuar.

Agora que você está bem, posso pegar o trem.

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