Indelével

A gente sente saudade do que não é nosso,
geralmente o que nos une na emoção
é um dos cinco sentidos avivado pelo desejo de possuir.

A gente sente saudade por gente que não sente mais nada,
nem vê, nem ouve, sente fome, frio ou cheiro,
mas que está lá em qualquer lugar onde queremos que esteja
mesmo que estar seja apenas uma suposição,
uma ideia triste de solidão.

A saudade cabe entre o polegar e o indicador
apertando uma foto, um bilhete, uma dor,
cabe na insatisfação do desencontro contínuo
e nas flores que mesmo regadas, não terão colo.

Não há saudade melhor que a outra,
nem dos parnasianos, nem dos beatniks
ou cantores com um copo na mão.

É uma abstração do passado
que explode no espanto do pensar
e no pensar no espanto:

- A saudade é indelével,
filhadaputamente indelével.


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