Vizinhos


É um casal de velhinhos simpáticos e calados que atravessam a rua para cuidar da horta que tem cenouras, nabos, cebolas e berinjelas. De vez em quando eles colocam num cantinho ali e vendem por 100 yenes (2,50 reais) um saquinho com cinco ou seis. É, a vida não anda fácil.

Me encontro com o velhinho nas terças, quando jogamos o lixo queimável. Dizemos apenas bom dia. Algumas vezes, apenas nos cumprimentamos com a cabeça. Ele vem com o carrinho de mão carregando os sacos de lixo, isso já faz alguns meses. Deve ser a dor na coluna, ele tem andado mais curvado ultimamente.

Ele dirige mal, já não enxerga bem. Esse murinho à esquerda com tijolos aparentes tem bons e nítidos riscos na altura de um para-choque.

Quando a velhinha está estacionando o Suzukinho, é melhor dar a volta no quarteirão, principalmente se for à noite. Nas noites de verão quando eu saia mais assiduamente pros rolês de bike, eu a via tentando estacionar, não conseguindo e finalmente telefonando para ele, que saia de casa, vinha até a rua e fazia os sinais de vem e pára até que começassem a discutir sobre os procedimentos de ré e pra que lado do volante girar e dois ou três carros parados esperando pacientemente pelo entrave até que sabiamente, a velhinha deixa o velhinho sentar ao volante e estacionar, raspando o muro, evidentemente.

Numa dessas noites de verão a vi descarregando vasos de ikebanas.

É muito comum nos centros culturais dos bairros acontecerem diversos cursos para os moradores, idosos ou não. São cursos de ikebana, manuseio de computador, ginástica, música, dança havaiana, inglês, outros. Tem até português.

Os preços variam, podem ser o equivalente a quatro ou cinco saquinhos de berinjela por aula. Nesses centro culturais também há quadras poliesportivas e muitos brasileiros alugam para vôlei  basquete e futebol de salão. Não mais que as tais berinjelas por cabeça.

A única ordem pétrea é limpar o local de uso, quadra ou classe, varrer, passar o pano de chão com os rodões, guardar as traves, enrolar as redes e entregar as chaves na hora prevista. Simples como ter os impostos sendo usados de maneira correta pelo estado. Um dia a gente vai entender  melhor esse conceito e aplicar com qualidade no nosso dia-a-dia no Brasil.

Hoje de manhã saí para dar um rolê de bike, apesar do frio e vento, o sol convidava. Na ida, não havia a bandeira japonesa no alpendre da entrada da casa dos velhinhos. Eu já sabia que no dia 23 de dezembro comemora-se o aniversário do Imperador Akihito. Quando voltei, encontrei a bandeira a meio mastro. Fiquei preocupado. Logo pensei na morte do Imperador, no começo do ano ele passou por diversas cirurgias, afinal é um homem de 79 anos, enfim.

Entrei em casa e liguei a tv. Nada.

Depois percebi que a bandeira estava a meio mastro porque eles não alcançam o topo. Simples.

2 comentários:

Bem disse...

Cara, que crônica bacana! Esse casal recebe a visita dos filhos?

KS Nei disse...

Obrigado.

Recebe. Não sei quem é filho, genro, nora, filha. Sei que tem netos e netas.
Às vezes tem barulho de moleque no quintal.
Abs!