Poetas bobos

Tem gente que pensa que poeta é coisa séria ou gente séria.
Não mesmo. Nem aqui, nem na China.

Aliás, na China do antigamentemente - que parece ser hoje mesmo - ser poeta era uma profissão.
Maiakovski dizia isso de si mesmo e que o poeta era a profissão do futuro da revolução proletária.

Também, um cara que se chama Vladimir Vladimirovich Mayakovsky tem que ser muito sério.

Mas poeta come e dorme como todo mundo.
Entre uma coisa e outra, caga e vai vivendo.

E também faz mais verbos e faz todos os verbos poeticamente.
Mas é comum feito cachorro deitado na rua em tarde de verão morno.

Poeta tem manias como todo mundo e todas elas convergem nisso aqui e em nada mais.

Nada mais é uma forma muito poética de dizer todo o resto.

Mas poeta não é sério não.
Olha bem pra cara do Drummond ou do Borges ou do Pessoa.
Ninguém com um olhar daquele pode ser sério ou mal piadista.

Poesias acontecem à toa.

Tem família que se chama Pereira e ninguém pensa na pera ou no pé de pera ou na compota de pera.

Tem um estagiário chinês que está trabalhando comigo que lê meu nome (Shimada) ao pé da letra porque ele lê em chinês:

Tao Tien ou arrozal da ilha. E se diverte.

Hoje perguntei qual o significado do nome dele, ficou sem graça, ressabiado, falou que era uma longa explicação.

Falaê, porra.

Dragão Matinal, mais ou menos isso, ele disse.

Caraca, pensei, ele é um cômodo feng shui ou uma posição de tai chi chuan?

Poesias realmente acontecem à toa.

Tinha

Tinha dia que eu chegava da escola e me fingia de morto. Deitava todo impertigado e ficava imóvel até cair no sono. Ou não caia, não sei bem. Geralmente eu saia daquele transe insano para correr de bicicleta ou atravessar a rua para ouvir o irmão mais novo do Nilson falar da frieira que pegou no mijo da cadela no monte de areia.
Mas não sei se eu era normal na época. Nenhum menino é normal aos 10 anos de idade.
Como eu realmente não era normal, eu caia no sono e acordava assustado com o céu escuro e o silêncio do apartamento solitário.

Tinha dois caras com nomes muito estranhos nessa época que eu não era normal, tinha o Boanerges e o Euconides.
O Boanerges morava numa casa feia com um quintal feio e com duas irmãs muito feias que pareciam com a mãe dele que também era feia. A mãe dele era daquelas pessoas que não tem controle sobre o volume da própria voz e nem sobre os graves e agudos. A voz dela era esganiçada e sempre meio gritante. Sempre que ouço um bule avisando que ferveu, lembro da mãe do Boanerges. E ela não tinha sobrancelhas. Uma vez eu vi o Boanerges com aqueles terninhos que fazem conjunto com shorts. Depois eu perguntei para ele porque ele estava vestido assim. A gente tava voltando da missa, mas é missa de crente, ele disse.
O Euconides morava numa casa que era a casa dos fundos. Mas na frente não havia outra casa, havia uma loja desativada que era a sala deles. A sala deles tinha uma porta de loja e sempre que alguém batia na porta fazia um barulhão lá dentro. Era uma porta perfeita para fazermos de gol, mas era impossível por motivos óbvios. A gente chamava o Euconides de Nico. Se ele ia virar Nico, porque cargas d'água deram-lhe esse nome horroroso?

Tinha a cadela do Nilson que se chamava Menina e que tinha mijado no monte de areia que o irmão mais novo dele pisou e pegou uma frieira incurável. Ele ficou meses com aquela porcaria no pé. Usava chinelo no pé podre e tênis no pé bom. Ele passava um remédio roxo por cima daquela pele remelenta que às vezes virava ferida. Ele dizia que não podia lavar o pé. Devia ser por isso que nunca curava. Nunca soube se curou. Mas por causa do chinelo, ele não conseguia subir na amoreira que havia no imenso quintal do avô do Nilson. Nós atirávamos as amoras brancas e duras na cabeça dele.

Tinha o avô do Nilson que era um português viúvo  e ranzinza que tinha um fusca sempre brilhando, novinho. O Nilson me disse que a cadela chamava Menina porque o avô queria chamá-la de Cadela, mas a mãe do Nilson não deixou.

Tinha uma vida inteira pela frente. E tinha que ir para a escola. Tinha preocupação não.

Coisa boa, meu

Viu a entrega do Oscar?

Torceu? Vibrou?
Riu?
Se decepcionou?

E

O Palhaço, do Selton Mello,

já viu?


Então depois a gente conversa sobre filmes legais.

Turvo

A última coisa que me lembro são das rodas dos carros passando muito perto da minha cabeça que estava grudada no asfalto por causa do sangue. Antes disso eu tinha desligado o celular e procurava o nome da rua em alguma placa. Isso porque alguém, não lembro quem, ia me mandar o endereço de alguém que também não sei quem é. Esta arma não é minha, este documento não é meu, este não é meu nome e não sou eu nessa foto. Não sei meu nome. Sei das rodas passando muito perto da minha cabeça, dá pra sentir o cheiro das pastilhas queimadas dos freios .

A primeira coisa que me lembro é uma janela semi-aberta, um vento fraco balançando suavemente uma cortina branca de renda barata. Não sei de quem é esse colo, mas preciso fazer um esforço enorme com os olhos e a cabeça para ver a cortina se mexendo lentamente. Não gosto do hálito dessa pessoa, ela fuma e despeja seu cheiro, seu suor na minha cara. Não ela não está fumando neste momento, mas já a vi fumando. Me sinto pegajoso porque todo poder que emana dessa pessoa está me envolvendo. Me sinto pegajoso por causa do amor fedido dessa pessoa. Mas é amor, isso eu já senti outras vezes. 

Entre a primeira coisa e a última coisa que me lembro devem ter acontecidos muitas coisas, devo ter vivido uma vida inteira, mas não sei bem o que. Sei que vocês estão aqui e não acreditam em mim.
Nem eu acredito em mim. Como posso acreditar numa pessoa que não sei sequer o nome?  

Sem título

Blogs estão morrendo.
Mas nós não.

Oh, yeah

Quando entro numas assim,
quero carne mal passada,
um livro do Bukowski,
uma garrafa de qualquer vinho de cinco dólares e
latas na mureta
pra ficar atirando de estilingue.

Oh, yeah.

Tem que ser som do Delta,
das encruzilhadas dos mojos criollos
das sextas-feiras dos menestréis.

Tem que me acordar
com todas as dores da vida
numa única nota flutuante
entre
o infinito
e o belo.

Oh, yeah.

Nada disso será tão intenso quanto suas danças,
suas vidas, suas cachaças fedorentas deitadas goela abaixo

sem satisfação.

I can't get no.



Aumenta o volume, cara,
a vida toda,
até gritar assim desse jeito aí.



Carnaval, o escambau

Semana passada tive uma crise virótica muito parecida com a tal Influenza.
Foi uma gripe forte.
Foi a pior coisa física que já tive.

Física, eu disse.

Fui ao médico, tomei remédios, fiquei na cama, chás, sopas, sofá e um repeteco da última temporada dos Sopranos.
Febres, calafrios, dores de cabeça, músculos destruídos, sonhos David Lynch, só que cinema B, como geralmente funciona minha cabeça febril.

No sábado à tarde achei que tinha me safado dela. Que nada.
Ela voltou no domingo à noite como se fossem milhões de hunos finalmente pisoteando Roma.
Um vírus histórico, veja só.

Mais febres, calafrios, dores de cabeça, músculos destruídos, sonhos David Lynch, só que cinema Z.

Os remédios, me disse o farmacologista, me farão ter diarréias, será o vírus sendo expulsos do teu organismo, por isso, alimente-se bem para que o ciclo se conclua.
Deixa comigo, pensei.

Hoje comi uma daquelas pizzas prontas de supermercado e benditas - malditas - foram as palavras do boticário.

Não fui trabalhar meio período da quinta, nada na sexta e hoje, segunda.
Quatro dias e meio.

Além de cagão, folgado.

Nesses dias, apesar da folga e do ócio, evitei o computador. Li muito, entre um delírio e outro:

"Jimmy Corrigan - O Menino Mais Esperto do Mundo", Chris Ware.
"Os Piratas do Tietê - Completo - Volume I, II e III", Laerte.
"A Hora da Estrela", Clarice Lispector.

Esse último ainda tô relendo. Está sendo a transição entre o mal e o bem estar.

Mas Clarice sempre me dá uma sensação de não-sei-bem-o-quê. E é exatamente por isso que sempre a leio e releio. São as mesmas buscas sensoriais que tenho com Kafka ou Márquez ou Borges ou Fonseca. Não é apenas uma questão literária, do conhecimento filosófico ou intelectual. É maior.

E então voltei pro sol, pra janela aberta, pra caneca de chá, a realidade.

Quando liguei o pc para ver as notícias, só carnaval.

Mais um motivo para evitá-lo. Off.

Bom mesmo foi a vitória do Timão em cima do C do ABC.

Volto ao travesseiro, ao aconchego e macio do futon e o abc de Clarice.

Carnaval, o escambau.





Yabadaba Buda - nono

Certa manhã no Largo do Arouche.

- Meu, amigo, rosas, ou tulipas? - perguntou o floreiro a Yabadaba.

- Sei lá. São dez mil céus entre a semente e o odor.

- Mas...

- Aproveite o instante - e inspirou.

Deixa de bobagem


Agora é aquele papo furado.

A moça morreu, nossa que pena.

Mas do jeito que ela andava nas manchetes policiais e em revistas científicas - lições de química - ia dar nisso, afogada na banheira.

Foi pro céu, foi, não foi, gente boa, gente boa todo morto vira.

Dizem que ela tinha um vozeirão, que marcou uma geração.

Uma ova. A única pessoa chata que devia ter toda a coleção da Whitney era a Céline Dion nos anos 90 que abria o bocão e ficava sustentando a nota até encher o saco e a gente ter que abaixar o volume.

A gente não por que eu nunca escutei nada inteiro dessa queixuda.

Ah, tinha - tem - a Mariah Carey que também se arreganha sustentando notas e até hoje não sei porque isso é importante numa canção romântica.

Pra imitar o Freddie Mercury?

Não, o som dela era um saco e ela foi pro saco e o que me enche o saco é ver todo mundo fazendo loas por ela.

Quando estava viva, seus discos estavam no saldão das lojas, nem dvd tinha, o que ainda se encontrava ainda era em video cassete.

Eu sei porque no sebo que eu fuço tem meia dúzia de shows e aquele filme em vhs. Faz muitos anos e o preço é meia moeda do Haiti, se muito.

E todo mundo fica falando/escrevendo a mesma ladainha:

- Eu não gostava, mas que voz, hein?

Uma ova. Deixa de bobagem.

Outros diálogos engavetados

1.
- Paredes tristes, doutor, talvez mereçam umas cores novas, mais vibrantes.
- Gostamos desse tom claro esverdeado, dá uma ligeira sensação de natural frescor. Mas anotaremos sua sugestão, senhora.
- Meu filho não gosta desse tom esverdeado. Ele disse que parecia uma mancha de musgo numa folha de alface.
- Seu filho já esteve aqui?
- Não, mas seria interessante. Já te falei que quando ele era vivo, trabalhava de pintor?

2.
- Nunca gostei desses bairros pobres. Odeio vir buscar a babá da Mirthes quando acontecem essas chuvas que param a cidade.
- É, esse lugar é bem sujo.
- Só sujo? É no-jen-to! Uma vez vim trazê-la porque era uma greve de ônibus. Passei num lugar ali atrás e tinha um bando de meninos fazendo xixi numa parede. Bando, amiga, bando.
- Mas porque ela não mora com vocês?
- Onde? Eu tenho coração de mãe, amiga. Não ia dar para ela caber naquele quartinho da área de serviços.
- É, eles fazem uns quartinhos minúsculos.
- E também não ia caber a cama e o berço.
- A Mirthes ia dormir com ela?
- Imagina, claro que não! Ela tem um filhinho. Dá até dó.

3.
- ... se eu ligo o aquecedor, a conta de luz fica um absurdo de cara.
- É foda, tá frio mesmo. Pior é que tem nev...
- Se eu não ligo, fico congelado, mesmo com blusa, jaqueta de snowboard, cobertas.
- Se correr o bicho pega, se fic...
- Posso até pegar uma pneumonia e dá-lhe gastar grana com médico, internação, essas merdas.
- Você tem outras opç...
- Tenho nada, é frio e acabou.
- Faz o seguinte, se mat...
- Boa idéia.
- E vai tomar no c...
- Ué, desligou.



Tohoku, antes e depois

Clique nas fotos para melhor visualização.


















O poder de superação das pessoas da região de Tohoku, no Japão, é sugoi, como dizemos por aqui.

Muita coisa precisa ser feita. Muita gente ainda está em abrigos coletivos, outros abandonaram suas cidades, empregos e casas por causa da radiação.

Milhares perderam suas vidas e outras vidas.

Um país onde o primeiro-ministro corta mensalmente 30% e todo o ministério 20% dos seus próprios salários para ajudar na reconstrução, carrega em si um gesto emblemático e humano.

Não vejo demagogia.

O dia 11 de março de 2011 está em mim porque eu estava aqui, 700 km de lá.

A onda sísmica foi tão forte, longa e intensa - 4 graus em Hamamatsu - que eu senti enjôo.

E depois, a paúra que nos atingiu foi tão grande e poderosa quanto o tsunami que todo o mundo viu.

Foi até maior porque nunca mais voltou para o mar.

Fotos: Yahoo! News/ AFP

God Save The Queen

Viva eu, viva tudo,
Viva o Chico Cabeludo.


E a Rainha Elizabeth II porque ela é rainha, baixinha, bacaninha, tem um sorriso de avó e quando fala tem aquele sotaque cool.



Aqui, acolá

Blog abandonado. Sim, aquilo é uma teia.

Hoje comprei um carro novo, prateado como estão ficando meus cabelos.

Amanhã é segunda-feira e eu queria apenas mais um dia assim.

O sol estava firme, o dia esteve gelado.

Hoje editei um clip, o U tub disse que teria que ficar mudo por causa dos direitos autorais daquela cantora.

Impossível.

Apaguei-o do site.

É uma pena.