Desinformação deformando informação

Acompanho três sites de notícias japonesas em português, escrito e dirigido por brasileiros residentes no Japão.

Tudo bem que não citem nada do intelectual Millôr Fernandes, afinal, ninguém é obrigado a ler um livro.

Mas tem o cartunista Millôr Fernandes. Oquei, ninguém leu a Veja nos anos 70 e 80 para saber que ele publicava lá. Tem gente que nasceu bem depois disso.

Mas um veículo informativo criado e escrito por jornalistas (?), não dar sequer uma notinha de rodapé sobre um dos criadores do Pasquim, o jornalista Millôr Fernandes, é de mandar tomar no cu.

Então tá mandado.

II

Aí eu mesmo me pergunto: acompanho esses sites pra que?

- Pra saber onde não ir, nunca fazer igual e só pra ver se o Imperador tá melhorando de saúde.

Millôr Fernandes

Eu li Millôr pela primeira vez com 11 anos, foi o Fábulas Fabulosas.

Depois fui lendo e rindo e ficando sério.

A referência intelectual na minha cachola é muito grande.

Millôr vai, o Brasil fica.

Fica muito mais burro.

Eu era o co-piloto dela

Hoje minha mãe faria 67 anos.

Se conheço os passos que ela daria, ela iria a São Paulo para comemorar. Mas sairia um ou dois dias antes. Ela adorava aquela cidade. Na verdade, ela adorava dirigir. 

Faria a mala no dia anterior, cuidaria do carro, combustível, nível dos óleos, calibragem dos pneus, águas, motor e o lavaria. Até um cheirinho deixaria pendurado na alavanca de câmbio. 
Sempre achou que o carro era uma espécie de vestimenta e que também deveria estar impecável. Na última vez que nos vimos, ela não fumava mais na cabine, já tinha diminuido bastante, mais um pouco pararia.

Ao voltar para casa, cuidaria dos assuntos internos, das torneiras, janelas e trancas. Aguaria o jardim, algumas podas e faria uma refeição leve. O banho, os cremes, e alguns telefonemas, os de saída e os de chegada.

De antemão, já saberia do horário de pico dos caminhões na Régis Bittencourt. Sairia fora dele, claro. Uma última olhada na mala, alguns detalhes, um creme novo, uma loção inigualável. Colocaria a mala no carro para subir novamente para uma última checagem nas janelas, torneiras, luz e o alarme da casa.

Óculos de sol, um tapa no visual no retrovisor e estrada.

Ela amava dirigir. Subia e descia de Curitiba a São Paulo como se fosse até a padaria para os embutidos.

O céu de Dona Adélia é movido a gasolina.

De certa forma, ela foi a primeira beat que conheci, claro, sem os sintomas da santidade incréu e insana de Kerouac e companhia.

No céu em que ela está deve ter auto-estradas de todas formas, com retas, curvas abertas e com paisagens impecáveis. Desde os bananais beirando a Régis às praias mágicas na Rio-Santos ou as curvas das serrinhas de Mairiporã, Mogi-Bertioga ou a Imigrantes.

Ela gostava da Imigrantes. Quando inaugurou, fomos para Santos no velho fusca 68 só pelo prazer de estar naquele asfalto. Ela ficou fascinada com as modernidades daqueles dias, com as longas pontes, a serra sem as curvas íngremes da Anchieta.

Hoje minha mae faria 67 anos. Não fez.

Mas está aqui, me levando para passear.

Feliz aniversário, Mã.




Dona Adélia em algum ponto dos anos 90. 





Quartà meinoite

O que resta mesmo é o silêncio, a falta das vozes, dos sons da rua, passos, carros, sombras se colidindo nas paredes.
O fim de tudo está na quietude.
Uma gota numa cachoeira faz toda diferença.


Uma pessoa se desfaz e outras dez se vestem de saudades.


Nem mesmo o som dos galhos crepitando na fogueira.
Nem cílios piscam,
plenamente não.


O escuro sabe onde tateia.


No escuro sou tão frágil
e tão lento
e tão ingenuo
e tão sincero.


No escuro me banho de auto-piedade como se a piedade fosse um dom.


Ao fechar os olhos todas as minhas vergonhas respiram melhor.
Somos o alvo dessa moléstia,
bunda-mole cabeça-de-vento pisca-pisca.


A poesia está tão livre que nem merece ser.

É mentira, Terta?



Eu gostava do Pantaleão e de tudo que era dele, a família (a Terta e o Pedro Bó), o cenário, a visita, os causos.

Ficava imaginando que devia ter umas trinta histórias para aquele olho atrás da lente escura.

Muda de canal

Como se desse para entender o medo.
Quando estamos com medo, não conseguimos raciocinar, ordenar pensamentos, situar.
Quando não estamos com medo, o medo vira apenas uma palavra de quatro letras, uma idéia incerta, o exato oposto desse momento enquanto escrevo "momento".
Ver uma pessoa com medo e tentar entendê-la é impossível. Somos capazes de sentir pena, mas não medo compartilhado.
Um personagem num filme passando por uma situação problemática. Ele está com medo, nós estamos assustados. ele morrerá, nós nos afundamos na poltrona.
O medo é uma derrota invisível e se somos vitoriosos, é inexistente.
"É inexistente" é diametralmente paradoxal demais.

Sem neuras, sem medo, sem essa.

Muda de canal.




Coisas - pensando sempre em Mário - claro - Quintana

Porque as coisas apenas desaparecem pela casa.
Coisas tipo bibelôs de mesa de centro.
Coisas tipo xerox autenticadas de documentos com fotos horríveis que ficam mais horríveis por causa da copiadora que é de marca coreana.
Coisas tipo sumiu o pé esquerdo da pantufa puída e descolorida.
Tipo o pé direito também.
Somem tubinhos de colírio.
Quantos a gente compra por ano sendo que um tubinho basta para dois ou três anos?
Somem as canetas esferográficas boas e as ruins estão sempre à mão.
Somem meias. Essas vão para dimensões tão impossíveis que nem são mais para os pés.
Meias em outras dimensões servem para marcar páginas em livros, acredito.

Se contarmos todos pregadores de varal que já tivemos na vida, não teremos vida, teremos pregadores de varal.

A cada trinta segundos, somem milhões de pregadores de varal pelo mundo em algum triângulo das Bermudas, junto com as bermudas.

No verão somem as bermudas e aparecem todas as blusas. No inverno, a coisa é a coisa.

Some o sol em dia de chuva.
Chuva:
Uma tarde de chuva é romântica.
Um dia de chuva é estorvo.
Três dias é quase má intenção.

Some o disco e fica a capa,
some a tampa, fica o tuperware,
somem os livros emprestados.

E tem aquilo que a gente quase nunca usa,
caneta vermelha, calendário da padaria, perfume dado,
camisa apertada, sorriso amarelo,
esses, sempre aparecem.





Tá tenso?

Tá tenso cara de cu?

encurralado?


Então clica aqui e Pollock-se.

(Tem link fixo lá embaixinho - como diria um antigo ator suiço).

Vem chegando o verão?

Ainda tá um frio de rachar, vai entender.


Primaverinha invernada de meias quentes quadriculadas.


Mas as odes ao verão, sol, sal, cio, sul, mar e o escambau começam na minha cabeça e emoção:


"O mar,
Oh! O mar!
O mar é o mar,
o resto é terra."

Seis por novecentos e cinco

Tava aqui pensando na troca de cabeças na CBF.

Saiu um extraterrestre e entrou uma caixa de repolho - vazia.

Sem menosprezar, claro.

Mas os dois estão para o futebol assim como estão discos voadores e legumes.

Porra.

Quase pifando

Cansado feito uma formiga.

Formigas nunca descansam, diz o cara da National Geographic.

Assim como tubarões nunca param de nadar, senão morrem.

Ou todo peixe dorme de olhos abertos.

- Viu?

Vai Teixeira

Depoimento do Romário:

"Hoje podemos comemorar. Exterminamos um câncer do futebol brasileiro. Finalmente, Ricardo Teixeira renunciou à presidência da CBF. Espero que o novo presidente, José Maria Marin, que furtou a medalha do jogador do Corinthians na Copa São Paulo de Juniores, não faça daquele ato uma constante na Confederação Brasileira de Futevol. Senão, teremos de exterminar a AIDS também. Desejo boa sorte ao novo presidente e espero que a partir de hoje (acho difícil e quase impossível) a CBF dê uma nova cara para o nosso futebol. Estou também muito feliz em saber que participei deste momento de vitória e de mudança no futebol brasileiro. Não só acredito, mas também espero, que uma limpeza geral seja feita na CBF. Só então, definitivamente, poderemos ficar tranquilos de que a mudança acontecerá em todos os sentidos."

Deu no OESP.

- Agora pode ser.

Imperador, um ovo

Quando uma diretoria de futebol diz que cumprirá o contrato do jogador até o fim mesmo com toda a mídia e torcida sabendo que ele já dançou, é porque ele já dançou mesmo.

É o caso do Adriano, o enganador.

Pois é, Adriano, eu sabia que você ia amarelar vestindo o manto sagrado do Tatuapé.

Segue teu rumo e tchau.

Medo, um ano depois

Há um ano atrás, no dia 11 de março de 2011, aconteceu aquele pavoroso tsunami a 700 km daqui de casa.
Durante o terremoto que antecedeu à grande onda, eu estava trabalhando com a cara enfiada dentro de um piano, mexendo nos pedais.
Desde então, o Japão registrou mais de 600 terremotos com magnitude maior que 5 pontos em seu território. Desses, 97 com magnitude maior que 7. Todos réplicas, dizem os especialistas.

Aquele terremoto foi o maior que a história já registrou, 8,9 para alguns e o grau máximo de 9 para outros. Dizem até que deslocou o eixo terrestre em metros.

Lembro nitidamente do Suzuki san dizendo "É terremoto!", eu levantar a cara e ver as lâmpadas fluorescentes balançando.
Terremotos duram segundos, dois, três, no máximo. Esse teve espasmos durante uns dois minutos. Por causa desse tempo enorme, senti o estômago embrulhar.
Devido à distância do epicentro, não sentíamos os tremores ao ponto de nos desequilibrarmos até termos que nos apoiar em paredes, mas sentíamos as pernas tremerem, consequentemente, o corpo todo, como se uma frota silenciosa de carretas passassem pela sala.
Durante esses espasmos, o Nagashima san recebeu um informe "terremoto" no IPhone dando o epicentro em Tohoku (Nordeste). Ainda comentou "foi no meio do mar, não tem problema". Mas sabíamos que aquele era diferente por causa do tempo longo dos tremores.

Ao voltar para casa e ligar a tv para as notícias e ao assistir aquela onda invadindo a cidade, senti o mesmo pavor quando vi os aviões batendo no prédio em Nova York no dia 11 de setembro de 2001.
Percebi que a história não era uma matéria escolar, mas um fato corriqueiro.
Teoricamente, a gente sabe disso. Teoricamente. 
Lembro que em 2001, passei aqueles dias controlando uma possível fobia de aviões (aerodromofobia) e pensava o quanto isso poderia afetar uma possível volta ao Brasil.
E no ano passado, pensei na morte coletiva como numa guerra perdida, afinal, o inimigo era o chão e sua arma era o mar e eu moro numa cidade litorânea.

No dia seguinte ao terremoto, as notícias do vazamento radioativo das usinas de Fukushima.
Depois a área de isolamento de 10 km. Depois 20 km. Pensaram em 30 km.
A um pouco mais de 40 km daqui há a usina de Hamaoka, na cidade de Omaezaki.
Passei dias pensando em possíveis rotas de fuga para as montanhas caso viesse um tsunami. Pensava que todos na cidade estavam pensando a mesma coisa e que seria como na cena do Monte Fuji explodindo no filme de Akira Kurosawa, com gente se atropelando, gerando um caos maior que causado por uma erupção.

Foram dias de pavor associado a uma extrema calma e calculismo estratégico necessário para não se abater diante de tantas desgraças logo ali, a algumas horas de carro.
As garrafas de água mineral sumiram das prateleiras de todos mercados. Muito dessa água foi mandada para lá, para os sobreviventes desabrigados.
As tvs só transmitiam notícias do local, não havia tempo e nem disposição para comerciais, filmes, programas de auditório, músicas. Só notícias, entrevistas com especialistas e depoimentos de sobreviventes.
Começaram a surgir propagandas estatais incitando o povo à solidariedade. Várias.
Imagens de pais e filhos de mãos dadas, pessoas dando informações na rua, jovens e estudantes ajudando velhinhos a subirem escadas, outros dando lugares em trens e ônibus.

Aos poucos, o país voltou ao normal ou a uma situação e comportamento tentando ser igual ao que era antes.
No verão do ano passado, fomos à praia desconfiados de qualquer marolinha mais afoita, mas fomos.
De tudo isso, sobrou uma sensação nova que se instalou na alma e que ficará para sempre.

O tsunami veio, foi embora e deixou isso, o medo de morrer daquele jeito.

Agora essa

I
Nem li direito.  Nem aí ó.

Não sei quem, mas querem cobrar direitos autorais por uso de vídeo em blogs.
Ora essa.

II
- Ei, é sabão.
- Sabão?
- Isso, sabão. Vai lamber sabão.

O nome dos caras - II


Segundo o Juca Kfouri, a saia justa da organização da Copa 2014 é essa:

A presidente do Brasil Dilma Rousseff não fala com o presidente da CBF Ricardo Teixeira, que não fala com o presidente da Fifa Joseph Blatter, cujo secretário-geral Jérôme Valcke não fala com o ministro do Esporte Aldo Rebelo.

Com brasileiros, não há quem possa, diz a marchinha.

O nome dos caras

FIFA, véio. O nome dos caras é FIFA.

Eles têm pinta de arrogantes e parecem que são mesmo.

A imprensa brasileira e todo mundo está apoiando o ministro Aldo contra o porta-voz Valcke porque ele disse umas coisas chatas de se ouvir e tudo relacionado com a política, organização e lentidão das obras para a Copa 2014.

Como se todos achassem que com os sul-africanos foi talco no bumbum.

Eles se chamam FIFA, o que já deixou de ser substantivo próprio, sigla ou instituição.

Virou adjetivo.

O Brasil vai fazer uma Copa do Mundo e quer brincar de amiguinho com os chatos dos patrocinadores, a FIFA e tudo mais tendo o Ricardo Teixeira de interlocutor.

Ricardo Teixeira, outro que virou adjetivo, feito maluf.

A imprensa que me desculpe, mas ufanismo não. Desde sempre todo mundo caiu de pau nessa organização e no que está ao redor, orçamentos, prazos, etc.

Agora somos os bonzinhos?

Ah tá.

Alguns blogs dizem tchau

O blog Revista Íntegra está se despedindo de seus leitores.

A maioria dos blogs, quando vão ficando à deriva, são abandonados por seus autores e nós, sem o aviso prévio do jornaleiro, continuamos clicando para ver se há novidades.

Elas não, avisaram e pregaram na porta.

As seis meninas que mantiveram o a Revista Íntegra por cinco anos estão levantando vôos solos.
Espero que surja outro blog dessa rosa dos ventos de seis pontos cardeais.

Os blogs desaparecem por falta de leitores e não por falta de coisas interessantes para ler.
Blogueiros escrevem por prazer, para não ter dor de cabeça no fim da noite, para falar mal de alguém, para tirar a cabeça do ócio, para tirar cabeças do ócio.
Ou escrevem por puro ócio.
A maioria de nós mantém um blog por prazer. Poucos colocam anúncios em seus espaços.
O diletantismo é quase uma regra. Somos os fanzines do século XXI.
Por isso acho que algumas das blogueiras da Íntegra manterão alguma forma de interação, algo maior que um twitter. Assim espero.
E quando for o début, é só avisar, apareço com um prato de salgadinhos.
Boa sorte e sucesso a vocês!

Não vou entrar em detalhes sobre a fase áurea dos blogs ou do modismo que tomou conta nos primeiros anos da década. Mas muita gente, muita gente mesmo, montou um blog. Alguns duraram um post, outros, dias, meses. A maioria achou que todas as idéias que pululam nas cabeças durante o dia - a vida - poderiam se transformar em palavras, em textos de ligeira sintonia com meia dúzia de leitores. Ledo engano.

Alguns, como eu, só escrevem textos curtos, que se físicos e feitos numa velha Olivetti, não seriam maiores que uma folha de sulfite com espaço 2. Pelo menos escrevo mais de 140 caracteres.

Mas gostaria de conseguir ser conciso e direto com 140 caracteres, como num haiku ligado na tomada.

Várias vezes durante as longas fases de poucas idéias, pensei em desativar isso aqui. Mas seria como cortar um braço. E se tem uma coisa bacana na vida é ter três braços.

Na medida em que a gente se profissionaliza como blogueiro (um diletante profissional, que merda), percebe que são apenas fases e que duram no vazio o tempo que for e que quiserem porque quando os dedos coçam, as idéias pipocam e apertamos os botão ON, tarde demais, já estamos dentro do mundo virtual com mais essa pra meia dúzia de leitores.

Que bom.

Para tímidos, os blogs são um santo remédio.
Para preguiçosos como eu, um oásis.

Voilá!