Quando penso em Ivan Denissovitch

Já tive a idéia de escrever a cada diferente verbo executado pelo meu corpo ou mente o que aconteceu, meio in loco.

É igual ou quase a uma idéia de um cartunista amigo que queria descrever o suicídio de um cara que saltou do alto de um prédio, desenhando todo o desenrolar e queda saltando junto de prancheta e lápis na mão.
Carvão é melhor, ele disse, é mais romântico.

O meu é mais fácil e longo, desde que acordo. Um dia, apenas um.

6:00 ouvir o despertador escandaloso suprimir meu ego
6:01 abrir os olhos e acordar
6:01 dar tapa no freio do despertador escandaloso
6:01 olhar pro teto e entediar-se
6:01 tirar o pé direito da cama rápido pra não ficar enrolando
601 achar os dois pontos um desmotivador para a literatura e suprimi-los
601 pisar no chão
601 tomar posse do espaço abaixo dos meus pés, ali começa minha individualidade, caráter e presunção de dono do mundo - meu mundo (!)
602 sair do quarto no piloto automático

Um dia ainda chego ao banheiro.

Poucas vezes escrevi num quarto de hotel, uma vez foi uma carta que nunca mandei e nem lembro para quem era. Estava no Rio. Foi triste.

Um em trinta milhões



Sou torcedor e otimista,
nessa frase, nesse entender,
tudo é tão abstrato quanto absurdo.

Na verdade sou pessimista quase niilista crônico,
mas dessa paixão, não nego vitória nem grito.

Não sei o que vai acontecer no Pacaembu,
espero de tudo, são 90 minutos iguais para todos.

Mas é a nossa casa, assim como era a casa deles.
E todos viram, derrubamos o mito do caldeirão.
Caiu o Olimpo e o último bastião porteño.
Romarinho é nosso rei
e o rei não está nu.

Corre pensa pedala

O poeta foi ao correio e gritou esqueçam a primavera,
O poeta não entende de engenho, mas sabe do voo da abelha,
O poeta esqueceu a primavera porque quer por demais o verão.

Gosta de mandacaru com guitarra elétrica bem pesada e da guitarra limpa de Metheny,
Sabe onde mora o sol porque no seu nariz aponta para a luz - de óculos escuros e
faz favor aumenta no talo porque meus tímpanos querem o infinito.

Corre pensa pedala enquanto venta à revelia de qualquer emoção pessoal,
Passa em frente ao sushi-yá "até 23:00" e mais tarde viro um glutão,
corre pensa pedala, pois

Hoje é o dia do meu amor.

O que eu vi na Semifinal de ontem

Por uma questão financeira, acho que o Neymar tem que ir pra Europa.
Pelo futebol, não.
Todo mundo fica Eurocopa, aqui acolá. Chelsea. Real, Barça.

E nós é que somos, capengando hoje em dia, os pentacampeões dentro de campo.

Ele vai aprender o que por lá? Marcação cerrada? Perder o individualismo? Calar-se no banco?

Quando um time brasileiro joga à européia, é pragmático. Quando lá é assim, oh, que europeu!

Neymar, fica. Ou vai.

O Neymar não sabe jogar sob marcação cerrada.
Vai encerrar a carreira européia em dois anos e voltar cheio de vontades, como voltaram a maioria dos milionários da pequena área.

Se ficar, como na semifinal da Libertadores, vira freguês. Então fica.

Os mocinhos

Tipo o Rio+20.
Acho legal um evento onde as pessoas ricas se preocupem com coisas para pobres. Coisas tipo a ecologia, qualidade de vida, esses assuntos em pauta e que são os novos verbetes bombando, orgânicos, planeta sustentável, verde, água para todos, natureza, salvem os cachorrinhos, adotem um cachorrinho, olha a foto do coitadinho do cachorrinho.

Nada contra, tudo a favor.

Mas a mesma ideologia que segue acima do bem e do mal, da média, da lei e dos bons costumes idiotamente corretos e que sustenta o sonho sem culpa de eterno consumo da classe média, é a mesma que reclama do Bolsa Família e diz que o programa governamental de erracadicação da miséria no Brasil é um cabide de emprego, ou não emprego.
É evidente que alguém, milhares, milhões, iam tirar proveito disso e ficar mamando nas tetas do Estado. Mas em qual sociedade, em qual categoria social, serviçal ou servido, não tem seus pilantras? Menos ou mais, em todo lugar tem gente gente e gente animal.

Quanto à parte Índia da nossa Belíndia (Bélgica e Índia), alguém tinha que fazer alguma coisa.
É importante também deixar de ser messiânico e achar que foi o Lula que bolou tudo isso.
Nada disso.
Foi um plano de governo junto ao Estado para a sociedade de pé no chão e famílias nuas vivendo de luz.

É bom sacar a diferença entre governo e Estado.
Ambos são tão abstratos quanto concretos e dão margem a erros de entendimento e percepção de onde começa uma coisa e termina outra.
Basicamente, governos passam e o Estado permanece. A respeito disso, grandes piadas kafkianas estão nos livros do próprio.
Quando governo e Estado se confundem, pode acontecer uma ruptura de um continuum democrático. É muito comum na história da América Latina.

Mas vamos voltar aos cachorrinhos.
 Há mais de 30 anos, Eduardo Dusek cantou "troque seu cachorro por uma criança pobre" em Rock da Cachorra. É um risonho e ligeiro protesto com as madames com seus cachorrinhos-pingente e a miséria que era muito maior que hoje em dia.
Não preciso dizer mais nada. Ele já disse.

Tem os mocinhos.
Mocinho vive fazendo coisa boa nas duas horas que duram um filme: sofre, apanha, leva fora, fica doente, desacreditado, sem amigo, família, vai preso e depois ergue-se empertigado, livra-se do mal e dá um happy end.
Há vinte anos que Hollywood sustenta essa prática com a idiotização e infantilização de seus roteiros. E tome super-herói e desenhinho. Como se não bastasse uma vez, fazem trilogias de todos heróis boboquinhas possíveis.
São deuses: voadores, saltadores, nadadores, sustentáculos da moral inquebrantável, salvadores de mocinhas bonitinhas e engraçadinhas.
Como se o Olimpo fosse em Nova York.

O problema não é fazer filme assim. É quem assiste. Assim como o Bolsa Família ajuda uma grande fatia da população, mas cria seus vagabundos crônicos, o entretenimento circense - que bom! - também gera uma idéia de que tudo pode ser resolvido com uma roupa especial, uma moral especial, um coração especial e uma imortalidade especial.
E todo mundo acha que é mocinho.
Para tanto, a maioria de nós ficamos compassivos com cachorrinhos andrajos - mas cuticutis - e crianças barrigudas da África, contra o trânsito caótico, a cidade suja, o ar fedido, contra leis ecológicas controladoras e leis contra a liberdade de imprensa e expressão, com a violência sexual, urbana, doméstica. Ficamos todos boquiabertos com a rapidez da internet e como isso banalizou a tal violência, agora na nossa cara na velocidade da luz, quase instantes antes da mesma acontecer.

Nós os mocinhos da classe média somos uns bananas hipócritas, sentimentalistas, poluidores, catastróficos, fofoqueiros e reclamões. Como eu que moro há vinte anos fora do Brasil e acho que posso resolver algumas coisas com um texto num blog que ninguém lê.
Mas tento, pelo menos. O que acaba se tornando uma auto-piedade idiota para o mea culpa, acho.

A tal da imortalidade especial.
Como se não bastasse nos amarmos mesmo assim, agora a maioria está virando evangélica. acho que é para se amar mais. A maioria tem fé.
Mas porque? Porque a vida tá uma merda? Porque é moda? Solidão, demônios, possessões, catarse coletiva, vontade de cantar berrando?
Vai prum show de rock, tem tudo isso e só cobram a entrada, sem dízimo.

A maioria realmente acredita num deus que matou o próprio filho - e conta isso pra todo mundo.



Explosão

Não há nada como uma vida, uma vida enfileirada após a outra, uma vida na frente da outra em filas aleatórias e cartesianas, em filas ordenadas e filas orgiásticas, em filas anacrônicas e filas futuristas, em filas infinitas e inacabadas, em filas sem filas, apenas vidas.

Eu não choro com poesia, tampouco vivo sem.
Como passar a vida e não ter poesia?

Não é necessário comprar um livro de poesias para tê-las, basta pensar em lê-las para que elas aconteçam. Poesias não são tintas pretas num papel e nem letras formando palavras formando idéias formando universos. Poesias são grandes vazios a serem preenchidos por quem as têm.

E quem não as têm, são grandes vazios a serem preenchidos pelas letras, palavras, idéias e universos. Poesia é a grande e eterna utopia alfabética. É possivel cantá-la em código Morse, traço, ponto e traço nas varandas de Garcia Márquez.

Em dias assim posso dizer que chovem labaredas tristes na minha alma, ainda que céticos, eu e minh'alma.
São tantos medos futuros que já os carrego como se fossem desde sempre, sinto-me uma mula de emoções encardidas por meu lombo velho e pela poeira que só a experiência acumula, vil e escrota.
Em dias assim varro a casa com precisão milimétrica onde não escapam as saudades e esses temores do porvir, não deixo que se escondam nas recônditas trevas dos móveis os perigos e angústias.

Bate outra vez a esperança no meu coração.

E ainda mal terminou a primavera e começou o verão, já canto seu outono.

Vês?

Nossa Bá

A Ba dançando no casamento da Cris e Daniel, seus netos.
Por causa deles, ela foi bisa também.



I
Minha avó nasceu em Sunayama, na província de Hokkaido, extremo norte do Japão.
Faz tanto tempo que eu não sei quando foi. Mas ela deve ter sido risonha e fofa.

Todos os bebês da nossa família foram e são assim.

Aos sete anos, ela teve que sair de seu vilarejo, ir até o porto e subir numa balsa ou trem ou sei lá até Kobe, de onde partiam os navios para o Brasil.  Eram os pau-de-arara do Japão pós-feudal.

II
Ela me contou que nessa viagem ao Brasil, já estava cansada de comer apenas arroz, peixe seco - quando tinha - e sopa de missô, missoshiro. Num porto, ela acha que era a Indonésia, da pequena fresta redonda entrou um forte cheiro de curry e ela foi correndo ver de onde vinha. Ela disse que um homem escuro vendia o curry em folhas de bananeira com pão ou arroz. Aquele foi o curry que ela jamais comeu e sempre procurou copiar.

E digo, um dos melhores rice-curry do mundo ainda é do minha avó, imbatível. Eu sempre disse pra minha mãe que o dela era melhor, mas desculpa mã, nesse quesito, a Ba detonava.


III
Tem a história do almoço do pai dela, meu bisa, ainda em Hokkaido. Como ela era a mais velha, era a encarregada de levar o bentô (marmita) para o pai na lavoura. Ela disse que devia ter uns cinco ou seis anos. Ia carregando a caixinha de madeira laqueada pela trilha e aconteceu um terremoto, coisa de dois segundos. Apavorada, seguiu em frente, já estava no meio do caminho e quando chegou lá, o velho Okamura continuava lavrando a terra, calmamente.

Isso a tranquilizou muito, por anos.

IV
A minha paixão por história em quadrinhos vem dela. Ela amava O Recruta Zero, gargalhava muito de lacrimejar e quase cair da poltrona.
Não preciso dizer mais nada.

Ela também gostava da Praça da Alegria, na fase de ouro com o Manoel da Nóbrega.

V
Ìamos nos domingos nos velhos Cine Jóia e Niterói, na Liberdade, ver filmes japoneses, os mais melodramáticos. Ambos já fecharam há anos depois da derradeira fase pornô e igreja evangélica que passam as velhas salas. Fomos várias vezes e não lembro o que assisti, mas sempre tem um ou outro ator japonês da antiga que vejo num livro, revista ou poster e sempre me dá uma estranha vontade de comer rice-curry.  

VI
Um dia achei um caderninho todo engordurado com algumas coisas escritas em japonês e em português, com aquelas letrinhas soltas, como ela escrevia as palavras. Eu devia ter uns dez anos e a única coisa que recordo era da palavra sol... e ela tomou rápido da minha mão.
Nunca me deu bronca, mas senti que tinha invadido um terreno proibido.
Eram poemas.

VII
A Ba tinha um pequinês preto que me odiava, o Yuri. Por causa dele descobri quem foi Gagárin. O Yuri tinha por hábito comer kamaboko, uma iguaria à base de peixe.

Deve ter sido o único cachorro com hálito de gato do mundo.

VIII
Com ela aprendi a comer ovos com shoyu mexidos na frigideira, no café da manhã. Numa viagem com os brothers a Monte Verde, o Cea adorou.

IX
Esteve doente por alguns anos, muito doente. Eu estive longe, muito longe. Na última vez que nos vimos e ela ainda estava um pouco lúcida, ela perguntou à minha prima Tati quem é aquele moço na sala - ele vai almoçar aqui?

- Ba, é o Neizinho, seu neto!
- Nossa, como ele cresceu!

X
Estive no Brasil em 2010 e ela já não estava mais tão animada e vívida, mas tivemos diálogos insólitos. Certa vez, enquanto a Kinha (filha mais nova) fazia sua maravilhosa lasanha, escrevi em alguns papéis ideogramas japoneses e ela ia lembrando e recitando para mim o que estava escrito. Fui escrevendo coisas familiares, nomes de parentes, coisas japonesas, até que escrevi TAMY, (タミ), e ela risonha, disse:

- Sou eu!

XI
Hoje, sete de junho de 2012, a Ba faleceu dormindo. O pai dela foi assim. A minha mãe foi assim. Assim será.

No fim do mundo

Jubileu da Rainha, eclipse solar, passagem do planeta Vênus entre a Terra e o sol.
Tudo em 2012.
Tem uns manés falando que são sinais do fim do mundo.

Não é o fim do mundo, é coincidência.
Assim como é coincidência você estar lendo isso.

Simples.

Fim do mundo, para qualquer um, é um lugar longe, geralmente é onde a pessoa está.
Para muitos estou no fim do mundo. Eu não acho, mas estou.

Para os maias - que elaboraram aquele calendário apocalíptico e sacana há 2500 anos - o fim do mundo era logo ali. Qualquer caminhada mais longa já era bem distante.
Aliás, no meio daquelas selvas, bastava sumir meia hora e já estava perdido. Mais longe, impossível.

E volto a dizer que o calendário só parou em 2012 porque as pedras acabaram.
As outras estavam muito longe, no fim do mundo.