Depois passou e ele realmente comprou amendoim torrado

Ele não poderia simplesmente morrer e abandonar seus pássaros empalhados. Ainda faltava pagar uma prestação do falcão peregrino e jamais devolveria o pássaro, nem depois de morto. Foi preciso vender a cabeça de rionoceronte branco, peça raríssima, para os remédios do mês passado e a condução para o médico.
Desde que lhe roubaram a carteira pela quinta ou sexta vez, tem sido uma batalha divina tirar todos os documentos novamente, principalmente a carteirinha do ônibus.
Talvez tenha que vender o tapete de tigre siberiano para passar o próximo mês.
Que nada, já tinha pensado nisso antes, prefere fazer rolo na casa a fazer uma bobagem dessa.
Bem, pra quem já vendeu um carro pra pegar um camarote no Sambódromo só pra ver a Luiza passar, faz de tudo. E dormiu bêbado, Luiza passou e tudo acaba em samba, mesmo.
O Miltinho Bolota tinha oferecido uma grana preta pelo tapete, mas naquela época ele tinha dinheiro. Tinha, depois que começou a sair com aquela viúva, prima do Vitorino, não passa na mesa de cacheta nem pra cumprimentar.
Ele não ia morrer, hoje não. Que morresse outro. Tanta opção nesse mundo e esse maldito desse enfermeiro tropeça e faz a cadeira de rodas descer escada abaixo feito o carrinho de Eisenstein até ele bater de frente com a parede.
77 anos não é idade pra bater de frente com parede, não naquela velocidade.
Quem iria tirar o pó das 13 corujas? Dos 11 canarinhos? Do galo enpedernido abrindo o gogó olhando encapetado pro espelho? Quem iria guardar todas as lembranças que cada bicho lhe trouxe? Ou cada negociata escusa para adquirir cada uma das espécies?
Não, deixe que morra lá pelo meio do mês que vem quando ele vai lá e paga a última promissória com a merreca que vem na aposentadoria. Ou vende a casa.

II
Mas pelo menos a febre baixou, comentou a filha adotiva para o velho senador aposentado, amigo da mesa de cacheta. O senador vai ver, logo passa tudo isso e ele vai lá e compra o amendoizinho torrado pra levar pra mesa de vocês.

Próxima bifurcação: Macondo

Verão acabando e os dias ficando mais curtos para que as noites frescas assim fiquem.
Outono cuidando e bem próximo no calendário. Tempo de tirar poeira do Cem Anos de Solidão para reler e relembrar. Percebo que ainda não o li nessa década. Coisas assim não podem esperar. Esse livro faz a minha vida ser melhor o que não me faz ser uma pessoa melhor, só a minha vida, o que já é bastante promissor.

7 pecados

Hoje pensei nos sete pecados, não lembro porque.

Não sei quais são, nem fui pesquisar.

Mas também fiquei pensando se há sete pecados, há sete, digamos, virtudes.

É só uma questão de ponto de vista, de otimistas e pessimistas.

Todos os catorze são um bom ponto de equilíbrio, isso sim.

Pecado uma ova, mané.

Nesse fim de verão

Eu to aqui mesmo fazendo as mesmas coisas,
as coisas sendo feitas e tudo se encaixando
certo ou errado como deve ser.

Não tem acontecido dias sem sol
ou guarda chuvas abertos
ou flertes com nuvens escuras
o que dá na mesma.

Mas quando disso houve,
me deixei tomar um banho de chuva
daquelas garoas quentes que
salvam sentimentos e lavam almas e pardais.

Mas sim, sombrinhas!
E muitos goles tenros d'água
límpida, etérea e física,
de céus, de montanhas de ar.

Nesse fim de verão
posso desejar alegria
porque bate mesmo é tristeza,
sabe daquela que Vinicius cantava e a gente refletia?

Peixe de aquário

O peixinho dourado de aquário é famoso no mundo todo só que ele não sabe.

Ele não sabe porque é absurdamente tapado. Fizeram tantas mutações estéticas e genéticas no bichinho que o cérebro definhou. Não que uma coisa tenha a ver diretamente com a outra, mas tem, parece que tem. Entre os humanos a relação parece ter fundamento.

Quando ele dá uma volta no aquário, esquece que esteve do outro lado e volta e esquece e fica assim até cagar de novo e ficar com fome e dar outra volta procurando comida onde já esteve, de onde nunca saiu.

Por isso, esqueçam decoração de aquário, escafandrista, caravelinha, plantinha, pedrinha colorida. Pro peixinho de aquário tanto faz uma parede transparente aqui e outra parede transparente lá. Ele só quer saber de abrir e fechar a boca, guelras, abanar o rabo e comer aquela ração com cheiro de galinheiro secando depois de uma chuva de verão.

Experimente, não precisa comer, basta cheirar. Ou você ficará seis meses sem comer frango ou seis meses sem sushi. A lembrança de um, frango, e de outro, peixe cru, será rapidamente associada àquele fedor.

Ele não cresce muito porque se adapta ao tamanho do aquário. E é tão burro que se o dono for um crápula e botar muita ração, ele come tudo até se empanturrar e amanhecer boiando para depois sumir na privada.

Se não cagasse tanto e se aquela bombinha não fizesse tanto barulho e se não fedesse tanto ter aquela água cheia de verme e bosta e bactéria, até teria um ou dois olhando pra mim agora.

Dizem que ele é sociável e gosta de viver em muitos. Mas eles nem nadam em grupos como os cardumes cinematográficos. Acredito que ele olha os outros e pensa:

- Eu ali, oh! Ali e ali! Oh!

Todos devem ter apenas isso na mente. E o papo fica por isso mesmo.

Aquela água fede muito e aquele barulho de geladeira velha que aquelas bolhinhas ininterruptas fazem irritar qualquer um. Até a ele mesmo.

Por isso, observem, podem ter características absolutamente orientais, mas os budistas preferem ter um lago de carpas ali no quintalzinho do templo do que esse peixinho bitolado que não serve pra nada.

Aquele motorzinho atrapalha a concentração de qualquer um, até de um monge bonzinho.

Não sei porque resolvi falar mal do peixinho dourado. Deve ser o tédio. Acho que estou virando um.
Vou lá dar uma volta de bicicleta.

No janela

Eu vejo um homem pela janela e
as cigarras berram amor nesse verão ao redor do homem.

Dos homens e mulheres caminhando em todos sapatos do mundo
e os sapatos nas vitrines esperando os homens e as mulheres.

De fato, a janela é apenas uma janela.
Nada passa através dela, se fechada,
mas é transparente e
imagens e mentiras entram em meus olhos

como dizer que o homem lá fora é um poeta

ou um coletor de impostos bíblico ou músico de esquina
ou senhor de suas idéias ou um cretino perfeito.

Nem homem há. Nem janela,
só um número na loteria de temas
que escolhi hoje de manhã.


3 são as reticências

Algumas pessoas escrevem seus textos e recadinhos e usam as reticências como se fossem uma fila de formigas passeando pela tela ou papel.

Ou botam as tais reticências com quatro pontos.

O que significam os quatro pontos? Uma suspensão maior para os devaneios que se seguem e que teria igual significado aos tradicionais e seculares três pontos?

Suspensão com mais de três pontos de reticências e/ou as formigas estúpidas devem ser algo muito próximo do estado de coma clínico semântico.

Ou um reticente astronauta em flutuante suspensão mandando seu torpedinho.
Pode ser também que a pessoa esteja desmaiando com o indicador apoiado na tecla de ponto e durante a queda tenta se segurar para não desabar de vez.
Mas já fez desabar o idioma e uma regrinha básica: reticências são feitas com apenas 3 pontos. Três.

Então que caia bem estabaque cataplof.

Além de ilegível, esse troço de alterar reticências para mais é feio e ardiloso.

A escrita é um istrumento de comunicação e não matéria prima para cacazinha emocional.

Já conversei sobre isso com um amigo há alguns anos. Na ocasião eu disse que havia lido um email com tantas reticências no final de todas as frases que elas ainda estão valendo. Ainda hoje, penso naquele email - que nem lembro o que propunha - mas sinto e vejo a idéia que ficou por terminar e claro, ainda não concluiu devido ao incontável número de pontos que ainda passam pela minha cabeça feito música chata.

Deveriam criar um software que faz sair uma mãozinha do computador e dá um tapinha na mão de quem tecla quatro pontos de reticências. Se persistir no erro, toma numa martelada. Na terceira vez, a martelada é no teclado.

Depois disso, a própria pessoa se martela na têmpora e cura a humanidade desse tropeço linguístico.


Na sombra do varal

Varal de lenços com mantras tibetanos em Shimoda, Japão, para que a oração escrita siga com o vento que ali bate e abençoe a quem se refrescar.



Poesia é uma coisa muito viva com uma raiz muito profunda e pernas grossas e finas e diapasões em LA absoluto afinando as sensações com seus periscópios multifacetados procurando a sua origem,

porque isso afirmo,

de onde vem, nunca sei não.

Mas ela dura uma ou duas eternidades se finalmente lida e respeitada. Até mesmo expurgada, o que é em vão.
E sai no vento feito oração tibetana amarrada no Himalaia. Até mesmo no quintal.

Macumbinha de monge careca tocando tambor pulando descalço numa tarde de quinta-feira.

No solo os passos da dança do frevo de canções desconhecidas. No pó colorido desenham mandalas e esperam as estações passarem, como é e sempre será.