Mãe, bicicleta e pregadores - nessa ordem


A minha mãe estava na área de serviços lá de casa mexendo nas roupas. Eu não fazia nada de útil nessa época. O bom é que tem época na vida que a gente é bem inútil, coisa entre os 8 e 15 anos pra menos ou pra mais. Nessa época de nada útil, a gente faz coisas inúteis como se fossem as mais importantes do mundo. Tipo jogar botão. Hoje eu acho inútil, mas se colocarem uma mesa e e dois times, jogo até sozinho. Mas não é isso.


A minha mãe estava na área de serviços lá de casa mexendo nas roupas e eu estava por ali mexendo na minha bicicleta. Nessa época, a gente falava bicicleta para a bici. Ela lá entre o tanque e a máquina e eu cá na catraca e nos freios.

Ali no canto havia uma cestinha com pregadores de roupa.

Não sei o que me deu na cabeça e comecei a colocar os pregadores nas costas dela, pendurando na roupa. Vai saber. Preguei a minha mãe em si mesma, uma dúzia ou mais de pregadores como se a roupa tivesse uns três tererês de pregadores.

Passou um tempo e desbaratinei de tudo, bici, área de serviços e tererê na mãe. Não lembro pra onde fui ou o que fui fazer. Um inútil. Não lembro se ela avisou que ia ao mercado - o Mercadão da Cantareira - ou não. Ela foi.

E eu desbaratinado de tudo.

To ali, não lembro onde e aparece a minha mãe com a cara mais p da vida do mundo e a mão cheia de pregadores.

- To indo pro mercadão e onde eu passava, todo mundo olhando. Eu tava me sentindo a gostosona quando a moça me avisou "senhora, tua roupa tá cheia de pregadores".

Comecei a rir e ela também e gargalhamos muito.

Cara, to rindo até hoje.

A mãe do Roberto

- mas ela é surda.

já estava alto. o pessoal tinha agitado uma festona na escola, na escola inteira. eu nem estudava lá, mas estava lá. toda escola tem escadas e todo mundo gosta de ficar nas escadas porque escadas são um excelente lugar para sentar e sentir-se mais íntimo e intimidade é o que todo mundo quer numa festa. a escada estava lotada. os corredores, a rua, a cuca.

numa das salas tinha uma banda de rock sem público. os caras estavam fazendo uma jam psico-eterna. na outra sala dançavam qualquer música. a mistura dos dois sons preenchiam o ar como uma gritaria. a noite nem tinha começado, podia ser dez da noite, podia ser quatro da manhã, podia ser ontem e nunca.
a banda tinha encerrado sua eternidade. só a sala dançante mantinha a música no volume perfeito para todo mundo ficar contente e bater papo e beijar e tatear e procurar.

de repente o som pifou, primeiro um silêncio de meio segundo e na metade seguinte gritos e uivos e urros e vaias. botaram a banda pra tocar. só então percebemos que a banda era ruim e tocava um punk ruim, o que poderia ser bom, mas geralmente quando uma banda punk ruim começa é porque virá outra e mais outra, todas péssimas, mas uma variedade de ruindades o que gera uma estética sonora inviável. naquela noite só havia uma banda, mais biltre, impossível. mas e daí?
escuto meu nome vindo de longe, é o Roberto.
- cara, você e o Valmir vão lá em casa com o meu carro, pegam meu som, deck, ampli, pre-ampli, equalizador, falantes, tudo. minha mãe tá lá, não tem erro.
- porque você não vai?
- porque já to muito chapado.
- eu também to chapado, Roberto.
- mas o Valmir é crente, não bebe.
- então eu vou.
nessa hora o Roberto pegou um papel qualquer e escreveu o endereço, entregou pro Valmir. depois olhou sério para mim, pelo menos tentou olhar sério e disse:
- mas ela é surda.
- quem?
- a minha mãe. ela é completamente surda.
- e dai?

catamos a Belina podre e chegamos no Bexiga. a casa dele era uma casa muito casinha do interior para o meu estado mental e para estar ali no Bexiga, mas São Paulo tem dessas. abrimos a portinha de muros baixos e entramos, as janelas estavam acesas. tentei tocar a campainha e Valmir me encarou atônito com cara de pra quê? rimos. fomos até a varanda e olhamos pela janela lateral, a velha estava rezando, de costas para nós. fudeu.

e rezava para a mãe e o menino Jesus silenciosos. batemos no vidro, na porta, até quase derrubarmos a parede e o bairro. e ela rezava. e balançava o corpo para frente e o Valmir teve a maravilhosa ideia de colocar o carro de frente para a casa e ficar piscando os faróis e foi lá fazer isso.

mas ela rezava de olhos fechados.

ficamos um bom tempo piscando os faróis. voltei pro carro e ficamos piscando os faróis. cigarros, xixi no poste e faróis. finalmente, ela apareceu na janela, acenou, fomos correndo. ela mostrou um cartão:

SOU SURDA E MUDA. FALE DEVAGAR PARA QUE EU POSSA LER SEUS LÁBIOS. OBRIGADA.

tinha o nome dela no papel, faz muito tempo, já esqueci. expliquei a situação. ela sorriu e fez sinal para entrarmos, a acompanhamos até o quarto do Roberto, catamos as traquitanas.

na varanda ela apontou pro carro e riu tipo "ah, o carro do Beto".

voltamos para a escola e o Roberto estava em qualquer lugar com alguém. ligamos o som, botamos um disco e a festa foi até as quatro da manhã, até ontem, até nunca.






Cagões e bobocas

No canto próximo à janela e a tv do lado esquerdo.
Ali ficava observando o cachorro, o filho, o aquário, a nora e os netos cagões e bobocas.

No tribunal dos que não voam

Não pode ficar triste. De todas cláusulas que acertamos nesses dias todos e debatemos e votamos e até gritamos e pulamos aplaudindo nossa unanimidade, ficar triste é uma bobagem, um crime lesa umbigo.

Mesmo hoje, nublado como um almoço de coveiro, cabem momentos especiais no quintal de céu cinza isento da esturricação do sol.

Gaste o cotovelo no muro. Fique horas no portão olhando as pessoas irem e virem, outras voarem, algumas não aparecerem.

Leve uma caneca de café quente bem amargo e cheiroso para mudar a vida dos passantes pelo nariz. É melhor ficar silencioso e ocioso e ver a banda passar, mas triste não.

Na vitrola deixe tocando um velho e bom pianista de New Orleans por toda a eternidade até aprender a falar e cantar com o sotaque dos colhedores de algodão do Delta do Mississippi.

Mas triste, não. A tristeza apaga o sol da alma. O sol da alma cintila nos gestos, no sorriso. Um sorriso, uma caneca de café cheiroso e palmas de blues, não há quem resista a tal alegria. Aproveita e dança. Aumenta o volume e dança até ficar levinho de quase flutuar.

Agora que você está bem, posso pegar o trem.

Varal II



Varal tibetano no fundo de um quintal em Shimoda.
Os budistas escrevem mantras nos lenços.
O vento balança os mantras e carrega as palavras por aí.
Quem pegar, pegou.
Vento é de estufar o peito, fechar os olhos e voar.
Mantra mantra mantra.
Ar, sobretudo ar.

Varal

Um varal precisa de ar,
ar de todos os lados possíveis,
ar que caiba na palma da mão ou aos milhões na ponta de uma agulha,
ar de cara transparente e gosto de nada.
Ar, sobretudo ar.

Um varal bem feito sobe aos céus e faz as roupas dançarem sem música aparentemente audível.
(Nunca se sabe o que toca um varal).

Mas há muita música.
Há dessas bem afinadinhas naqueles sopranos lúdicos com mil sabores de Hortelãs e daquelas que só passarinho esperto tira de ouvido escondido na sombra do bosque.

Varais dançam, despencam, voam, sussurram e são trapézios mágicos para artes tais de outros longínquos sertões.

E/ou locais.

Mares na Lua

Já mandaram um monte de gente pra Lua. 
Um monte assim, coisa de menos que quinze ou vinte, mas gente. 
E na Lua. 
Não deve ser fácil fazer um troço desses, mandar gente pra Lua.

Mas é de uma confusão mental e de uma dificuldade absurda manter uma praia limpa. 

E olha que já teve gente na Lua.

Falando bem, falando mal - falando

Não existe um propósito. Existe uma ideia e geralmente basta arregaçar as mangas. Não tem essa de fazer bonitinho. Nem de fazer para agradar gregos e troianos.
Nunca conheci nenhum grego ou troiano. Se um dia acontecer de trombar com um ou outro, faço um café e agrado do mesmo jeito. Ou faço um aceno de mão. Ou falo que o time dele é bom e que tem um meia esquerda que é meio preguiçoso, mas resolve.
Geralmente esse papo agrada a gregos e troianos.

Os ruídos estão à disposição. Juntar tudo, misturar alegria e melancolia entre microssegundos silenciosos dá-se o nome de música. Não é tão simples, mas é. Tem sua ciência, seu toque.
Hoje quem me comoveu foi Chico Science. Não que sua lírica cause tal efeito, mas pelo fato de saber que aquela música foi uma das últimas que aconteceram enquanto ele misturava ruídos e nos fazia pensar e dançar.
Pensar e dançar. Frejat gritava essa pra gente e a gente gostava porque era possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Ontem foi um blues ao vivo do Jon Lord, um solo duca no Hammond do bigode. Esse é outro que morreu.
Se eu continuar nesse pique, vou começar a achar que os vivos andam fazendo uma música bem blé.

Sábado assisti/cochilei o The Avengers, com aqueles heróis todos. Foi como se não tivesse assistido nada. Não acrescentou nada. Filminho bocoió, seu. Uma coisa eu sei, todo roteirista de ação adora explodir Nova York.
Alguns filmes nos fazem crescer. Cinema Paradiso é foda. Se a conta do crescimento fosse jogado na altura, eu estaria com vinte quilômetros depois de ver esse filme. Alta Fidelidade, com John Cusack, é a minha vida num universo paralelo. Não o protagonista, mas o balconista, o Jack Black.
Amarelo Manga também é daqueles de coleção na estante.
Filme de ação pra valer é Old Boy, sul coreano. Punk, sem gente que voa e solta rainho.

Posso citar uns 100 filmes legais. Mas os legais-legais sempre são poucos e pessoais.
Ultimamente tem-se produzido fluxo de ar, brisa de transparência. Explosão de nadas no vazio.

O meu medo é a coisa piorar. E isso parece ser o objetivo dos produtores de entretenimento.

Não gosto da frase sou do tempo em que. Não sou do tempo. O tempo é meu. Meu tempo é o sempre, foi ontem e é agora. Amanhã são outros quinhentos. Mas já foi mais fácil divertir-se com as formas mais simples de entretenimento que são a música e o cinema.

Hoje em dia eu ronco no meio desses espetáculos ocos. Deve ser a idade.

Românticos Anônimos - 2010


Um filme doce. É sobre chocolate, mas é mais doce. 

Diversão garantida. 

Separe o chocolate e não a pipoca. 

Lá pelos 15 minutos já começa a salivação.

FOME


O som de um bife
deitando na chapa
soa como a 5a. Sinfonia.

Não, não.
Van Beet não era vegetariano.