Os livros

Minha prima escreveu-me sobre os livros, da minha mania em adquiri-los, tê-los, lê-los. É um fetiche, como diz Caetano.

Gostaria que mais pessoas lessem e vibrassem como se estivessem assistindo a um programa de auditório ou uma partida de futebol. Posso não estar gritando gol a cada linha de um poeta favorito, pelo menos por fora, mas a minha alma veste a camisa e carrega a bandeira por tal literatura e vibra e urra a cada passe certo, parágrafo impecável, gol de letra.

Não é possível crer que Mário Quintana, por exemplo, tenha menos público que o Faustão. Também não quero que as pessoas  larguem o frugal do domingo para enfurnarem-se em poesia, não! Não sou um líder comunista querendo uma revolução cultural nos moldes chineses. Mas muita coisa seria muito melhor e mais esclarecida se mais pessoas lessem e adquirissem o hábito de tê-los por perto.

Há mais farmácias que bibliotecas e livrarias por município brasileiro. Quiçá no mundo. É natural que as pessoas preocupem-se com a saúde ou que estudantes optem por virarem farmacêuticos ao invés de bibliotecários. Dá mais grana. Mas poderia ter mais um pouquinho.
Em 2010, 93% dos municípios brasileiros tinham uma biblioteca pública. No mesmo ano, apenas 28% tinham uma livraria.

Gosto de cheirar livro, novo ou velho. Os da minha estante estão com o cheiro da minha casa, não contam. Valem os velhos que chegam dos sebos, aqueles esquecidos no alto da prateleira mais profunda.

Cheiro de livro velho me remete a dois personagens, um de literatura, o cigano Melquíades, de "Cem Anos de Solidão" e outro de cinema, o intelectual Dedo Torto, de "A Excêntrica Família de Antônia".
Tem também uma lembrança rasteira de Hermann Hesse porque quando li "O Lobo da Estepe", algumas páginas estavam ligeiramente emboloradas.

Achei uma Cândida Erêndira, do Garcia Marquez por 1 real num sebo em São José dos Pinhais, no Paraná. Fiquei espantado e fui ao caixa conferir. A moça me explicou que era do tempo do FHC, quando o real quase parelhava com o dólar, por isso o preço. Esqueci de reajustar, ela disse, mas tudo bem, pode levar.
Foi no Sebo da Visconde, acho que o local que mais matei o tempo quando estive por lá.

Tem os livros novos.
Os livros novos têm aquele cheirinho doce de tinta fresca guardada em milhões de letrinhas ordenadas para causarem emoções ou ensinarem a agir.
Basicamente, livros são feitos para ensinarem a agir. Todos, ficção ou não.
A gente aprende a amar, construir casas, salvar vidas, conduzir automóveis, curar soluços, gargalhar, chorar, escolher cachorro, ter requintes, ter bugalhos, criar um paraíso no quintal, no olhar, nos gestos, na vida.

Hoje vou começar um livro novo de um autor inédito para mim, o Eduardo Tornaghi, presente de uma amiga escritora que carinhosamente se preocupou em remetê-lo para que eu pudesse entender um pouco mais da arte mútua.
Dei uma folheada e uma cheirada e olha só, já estou escrevendo sobre ele antes mesmo de lê-lo.

Vejam vocês o que causa um livro.

Ok, você venceu: batata frita!

Daqui a dois anos vai rolar eleição pra presidente, governador, patatá.

E se o moço que venceu na cidade de São Paulo inventar de sair candidato a alguma coisa e o partido disser ok, você pode, será a ordem natural das coisas políticas no cargo trampolim que é ser prefeito dessa cidade.

Isso é uma falta de respeito com a história dos que morreram defendendo a Constituição em 1932. Defender a Constituição contra a ditadura getulista é o maior legado histórico e político dos paulistanos. Ir contra esse fato é estapear a cara e o orgulho das pessoas da cidade.

Mas se ele for até o fim e cumprir os quatro anos, não fará mais que sua obrigação com milhões de pessoas.

Pessoas porque eleitor é palavra para estatística, pessoa é todo mundo, tia, mãe, pai, amigo, cobrador de ônibus, aquele ali, eu, você e o prefeito, até quem não votou nele.

Então, Sr. Prefeito, cumpra com sua obrigação.


Senhores candidatos

Senhor José Serra e senhor Fernando Haddad, não gosto da política de vocês, da conversa e do discurso de vocês. Não gosto dos partidos políticos de vocês. Não é nada pessoal, de verdade.

Mas amo a minha cidade. Muito.

Por isso não importa quem ganhar ou perder, pra mim ambos são piores. 

E por isso mesmo, não fodam com a minha cidade.

Debate

Acabei de assistir o debate dos dois candidatos da minha cidade.

São dois chuchus de terno e gravata.

Pobre São Paulo.

Imagens

Noite clara de lua muito branca dos olhos fecharem de tanta lucidez.
A lua entra pela janela e desenha a janela no chão de tatame.
O tatame abraça a lua e abraça a imagem e não cabe em si de tanta felicidade.

Eu queria um maço de rosas nesse meio de conversa 
mas as rosas, as rosas são as rosas.


UIA!


Sério que isso é sério?

Houve um tempo que o sindicalismo de situação era peleguismo.

Mas ser do sindicato do partido da situação não é peleguismo não!

A situação é sagrada, a mais farta sabedoria política e social, a mais culta das ordens públicas do ocidente, a mais mais.

Votar na oposição é ato fascista. Não ter vínculos com a situação é ato fascista. Não curtir a situação é ato fascista.

Ir na casa do Maluf prum beija-mão em troca de minutos televisivos é ato revolucionário. Putz, cara, total.

Não, eu não gosto da oposição, do partido de oposição ou do candidato de oposição. Eu não gosto de ninguém desse jogo de atrevidos.

Não, eu não voto. Só constato e reclamo.

Regina Rainha



Estava estou escutando Elis.
Estava porque tocou no carro e depois toquei de novo, cheguei em casa, botei de novo e agora to aqui todo todo.
Essa coisa de mp3 em modo aleatório traz as benesses da absoluta surpresa - e satisfação.
São sensações, diria o Rei.

Elis é um Brasil tão grande que transporta em si mais que o Brasil, transporta uma América inteira, um chão que cheira e soluça a saudades, comidas, amigos, vozes, grãos de areia na unha do dedão do pé.

O mínimo e o máximo sob a luz de serem um tudo total.

Lar.

Quero a floresta em lugar da cidade, ela diz. Ela sempre dirá, pra sempre.
Eu também quero.

Nessa afirmação está implícita essa vontade imensa de ver coqueiro e samambaia e gritar as palavras coqueiro e samambaia e todo mundo entender mas não compreender porque estou gritando coqueiro e samambaia.
Ah, nossas ruas e a minha gritaria.

Não importa. Mas gritarei.

Frases muito biitinha

I

Tem uma que eu adoro que vira e mexe aparece no social, que é

"Em país desenvolvido não é onde pobre tem carro.
É onde rico utiliza transporte público".

Beleza. Ô. Ainda mais se a frase vem acompanhada da foto de um busão com conforto de classe executiva de um Airbus. Aí é fácil.
Se isso é uma referência ao Brasil, a São Paulo, à capital, fico pensando no transporte público que temos por lá.

Se rico, a classe média emergente, a estabelecida, os pobres, a sociedade em geral evita usar o busão nacional, o metrô nacional, o trem nacional, é porque não cabem. E porque se os pobres estão comprando carros, é porque aquilo é ruim mesmo.

Então não adianta vir com frasezinha com pseudo-efeito social.

Mesmo morando longe, concordo que o trânsito está horrível e é um caos de milhões de motores ligados, escapamentos cuspindo e pessoas em aquários com rodas.

Mas deve ser bem melhor que segurar um cano no teto do coletivo disputando poucos milímetros de piso com o pé do cara ao lado. Do outro lado também. Na frente. Atrás.

Que as metrópoles precisam diminuir sua frota de veículos particulares, é evidente. Mas a frase acima me parece querer matar piolho com martelo.

II

"Se você ensinar seu cachorro a ser vegetariano,
pode amarrar ele com linguiça".

Tá. E o pai do Galego é astronauta.
Não, essa não tem no social. Inventei agora. Mas bate no mesmo ticoeteco do busão.

Indelével

A gente sente saudade do que não é nosso,
geralmente o que nos une na emoção
é um dos cinco sentidos avivado pelo desejo de possuir.

A gente sente saudade por gente que não sente mais nada,
nem vê, nem ouve, sente fome, frio ou cheiro,
mas que está lá em qualquer lugar onde queremos que esteja
mesmo que estar seja apenas uma suposição,
uma ideia triste de solidão.

A saudade cabe entre o polegar e o indicador
apertando uma foto, um bilhete, uma dor,
cabe na insatisfação do desencontro contínuo
e nas flores que mesmo regadas, não terão colo.

Não há saudade melhor que a outra,
nem dos parnasianos, nem dos beatniks
ou cantores com um copo na mão.

É uma abstração do passado
que explode no espanto do pensar
e no pensar no espanto:

- A saudade é indelével,
filhadaputamente indelével.


URNA é coisa racional


Ao partidOanarquistAmacumbadO (PAM) não importa quem vai ganhar o posto de alcaide nas cidades do país, se de direita ou esquerda, contanto que faça todas as coisas públicas funcionarem, pessoas, objetos, repartições e gentilezas.

Ficou provado que tanto uns canhotos quanto destros são desleais e inimigos do povo, por isso, o PAM faz de conta que nunca existiu.

E vai reclamar de uns e de todos como sempre fez. 


Deu nó no dono - deu dó do dono também

As pessoas adoram fotos de bichos e ter bichos.
Também gostam de bichos se acariciando, gatinhos se lambendo, cachorrinhos cuticuti dormindo.
Piram, pulam, vibram, com bichos diferentes se curtindo, tipo chimpanzezinho e pastor alemão, chihuahua e hamster,  dálmatas e patinhos amarelos.
Acham que isso é uma espécie de anti-racismo, um grito pelas liberdades civis, pelos direitos iguais. Isso se chama antropormorfização, na verdade.
Eu também achava que a Táta, minha tartaruga era mal humorada.
Isso funciona porque dá margem a personagens em quadrinhos.

As pessoas deliram, gritam, urram por filhotinhos de toda espécie.

Eu gosto dos vídeos de gatos e cachorros fazendo aquelas besteiras que os donos, entediados com suas humanidades, filmam para partilhar a bestialidade de seus pupilos quadrúpedes.

Aquela do gato gordo que se enfia nas caixas. Ou do cachorrão que arrasta a dona, a mesa, a festa e meia Inglaterra.

II

Todos os dias, no final da tarde, vejo as pessoas passeando com seus cães.

Passeando é eufemismo, na verdade, estão levando os cães pra cagar. E como as pessoas cumprem as regras por aqui, todo mundo carrega uma sacolinha.
O bicho agacha, faz sua graça e o dono recolhe enquanto o cachorro senta e fica olhando o humano de cócoras guardando a merda num saquinho.

Nessa hora me pergunto, quem é dono de quem?

De todos os truques que ensinam aos bichos, cagar na privada seria um tremendo salto evolucionista para caninos e primatas sapiens. Não precisaria nem dar descarga - por enquanto - mas bastaria que o bicho fosse lá e cumprisse com seu dever diário.

De que adianta o cachorro catar elegantemente um disco de frisbee em pleno voo se ele ainda caga em qualquer lugar? Uma coisa realmente compensa a outra?