O nome do China

Pro Marcinho eu era o Coreba. Ele dizia que eu não era japonês, mas coreano. O Marcinho é mineiro de muito longe, lá do Jequitinhonha.

Nunca fui pra Coréia e acabei vindo pro Japão e conhecendo um chinês maluco que diz que eu sou maluco.

Quando a gente está no Brasil e encontra alguém do Extremo Oriente e acha que ele é exótico, bem, exótico é encontrar o cara do Extremo Oriente no extremo oriente, tipo na última estação do Expresso Oriente, mais ou menos onde a Agatha Christie diz quem é quem.

Li em algum lugar que apesar da China ter uma população dez vezes maior que os 128 milhões de japoneses, o número de sobrenomes na China é de apenas 4000 e no Japão, entre 80 a 100 mil.

Meu sobrenome é Schimada (島田), mas existe Tajima (田島), ou seja, basta inverter os ideogramas, por isso essa multiplicação de sobrenomes no Japão.

Veja, são um bilhão de chineses com apenas 4000 sobrenomes. Repetem e repetem e repetem.

O sobrenome mais comum é Wang. São 90 milhões de Wang na China, quase meio Brasil.

Só em Beijing, são 10 mil Wang Tao.

Na China, o legal é ter um nome com apenas dois ideogramas. Quando vão registrar o bebê, eles verificam se na região não há algum xará. Como por lá tudo é superlativo (é!), encontram sempre uns 300, só naquela rua. Então o escrivão diz que não dá. Colocam mais um ideograma e encontram apenas  130, então tudo bem.

Os ricos geralmente têm dois ideogramas porque abrem a carteira.

Outro dia perguntei ao Dragon (蒋朝龙, Jiang Zhaolong, Dragão Matinal) se ele tinha alguns amigos com nome de Mao Tse Tung ou Lao Tsu ou Kun Fu Tzu, ele disse que era proibido, que apenas esses grandes homens poderiam chamar-se assim. Ficou bravo. Na verdade ele fica bravo toda hora. Por lá deve ser comum ficar bravo à toa.

Tampouco conheço Jesus ou Sidarta ou Krishna. E também só conheço um Ariano Suassuna e um Francisco Buarque de Hollanda, por exemplo.

O chinês mais famoso do Brasil é o Zizao, meia atacante do Corinthians. O Dragon nunca ouviu falar dele. Mandei foto, vídeo, não adiantou.

O Dragon ficou muito bravo quando descobriu que dragão é gente feia no Brasil. Eu disse que homem dragão é o cara que fala alto, fortão e que a mulher dragão é feia. Ele gostou, desconfiado, mas gostou.

O Dragon faz estágio onde trabalho. Se ele souber que estou falando dele, ele vai ficar muito bravo. Esqueçam tudo.

Fuleco?



O mascote da Copa de 2014 é um tatu-bola.

Deram o nome de Fuleco pro bichinho.

Coisa de cu.

Fuleco é uma mistura de FUteboL + ECOlogia.

Coisa de cu de burro.

Mais futebol e ecologia que TATU-BOLA é impossível, cu de burro.

Como disse o meu amigo radialista, daqui a pouco vão começar o slogan "VOLTA TEIXEIRA".

Nem.

Mas Fuleco é de doer. O Ricardo voltar é pior.

Na verdade, o mato tá sem cachorro e praticamente ficando sem mato.


Preto e branco em technicolor



Seremos dez mil do mundo todo. 

Mais que isso, nós seremos todos os onze em campo vestidos de preto e branco com toda a América abaixo dos cascos do cavalo de São Jorge.

Jorge Henrique Guerrero é o nosso ataque. E pode ter um Sheik.

Espero que o meu grito de gol exploda muitas vezes nas duas partidas e que ecoe ecoe ecoe.


Batman

Bate covarde.
Bate martelo.
Bate omelete.
Bate tambor.
Bate bolo.
Bate prego.
bate punheta.
Bate lata.
Bate a cara.
Bate no poste.
Bate de frente.
Bate de três dedos.
Bate de trivela.
Bate de peito.
Bate de curva.
Bate de chapa.
Bate de jeito.
Bate com gosto.
Bate o sino pequenino.
Bate até virar manteiga.
Bate clara até virar neve.
Bate o reflexo do sol.
Bate o reflexo do sol no espelho.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio onde tinha um jardim.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio onde tinha um jardim e agora não tem mais.
Bate o reflexo direto na minha cara.
Bate o reflexo.
Bate direto.
Bate na minha cara.
Bate covarde.

Onde todo mundo é ninguém

Onde está o passado?
Os cheirosos homens de negócios?
Os carros de muitas portas, botões e brilhos?
A ralé?

Onde estão os prédios de vidros tensos?
As bonecas de pernas abertas?
As figuras de honra e terror?
O camelô?

Onde moram os disso e daquilo?
Onde plantam orquídeas e impérios?
Onde gozam sem gota de amor?
O perdedor?

Todos, todos!
Ninguém, ninguém!

Reencontro anunciado



Toda vez que eu volto do Brasil, trago muitos livros.
Como as empresas aéreas nos dão o direito a duas malas de 32 kg, saio no lucro.
O problema é que chego em casa e vou ajeitando os livros nas estantes, onde tiver espaço, daquele jeito. 
Fiz isso em 2010 logo que voltei, depois dei uma organizada e outra mais recentemente. Nessas mexidas, com os títulos mudando de lugar, sempre some um ou outro que ainda não li. Não é sumir de puf!, é sumir de ir parar nas prateleiras de baixo, que são as piores para ler os títulos na vertical.
Aconteceu isso com esse aí em cima. Deve ter mais por aí. 
Achei-o no Sebo da Visconde, um dos meus lugares prediletos em São José dos Pinhais. Já disse isso, gosto de dizer isso. 
Nem lembrava dele. Tinha uma ligeira impressão que tinha mais um Drummond por aqui, mas era como se fosse um sonho de cochilo, uma imagem etérea distante, uma lembrança esfumaçada como são algumas depois dos quarenta.
Foi uma grata surpresa. Agora é saborear.



Só para constar, terminei de ler esse.
A gente escuta uma canção dele e cria as nossas próprias construções, folhetins, Genis.
Quando alguém se propõe a organizar uma publicação assim com outras tantas percepções e entendimentos, nos faz lembrar da diversidade possível e impossível que a lírica, qualquer lírica carrega.
Essa é a grande roda-viva para lermos e escrevermos mais.
Também é legal pra matar saudades, desempoeirar o acervo, gastar a agulha da vitrola e encher o ar de Chico Buarque.


O rio


O rio transbordou borbulhou, a casa voou e a sensação que deu foi de puro riso – o rio - por causa das bolhas, gargalhadas frouxas, férias sem agendas, nem dias nem noites, só idas e vindas e toques de do-in e pétalas e circos, suores por um fio, pelicanos vivos, porcelanas alvas, fios coloridos, filhos coloridos, folhas coloridas, fitas coloridas, fênix colorindo.

O rio correu margens, dezessete afluentes, loucas e ávidas pororocas roucas, Muddy Waters barros, barro, potes de límpida e fresca, a moringa me ensina sobre o céu, as nuvens, a chuva de refrescar a cabeça e a nossa visão distante e contente do fim sem fim do horizonte que não termina para qualquer lado que aponto o dedo que dedilho o pinho e sacudo a bunda rhythm num blues.

O rio por baixo da ponte empurra a sombra e não empurra a sombra e não move nem um palmo de nada, nem ar, nem sereia, nem mãe pai d’água ou a terceira margem de Guimarães que é rósea, o Rosa garoto descabelado compondo versos, linhas, tintas, preces, frestas, vias, cordas, minas, Minas, manos e mimos sob a sábia sombra de tênues retas linhas abusadas.

O rio do homem segurando a coleira, o cachorro – bravo ou manso ou cadela, o homem passeia assovia cantando o Rio que cabe num azulejo ou partitura, que sabe doces e drinks, que se presta pleno aos bons homens de caneta no peito porque o poema está no peito e porque o Brasil não é perfeito, mas é totalmente perfeito e nada lhe é igual e nada merece mais ter um país dentro de si que um ser possível pensando num rio.