Lista de livro, no way

Lista de livro pra ler no ano seguinte. Nada a ver.

Um livro chama o outro.

Num dia, crônicas de João Ubaldo. Quer mais, quer mais crônicas e acha um de pequenos contos do Guimarães Rosa e aí você tá conversando com um amigo e aparece um escritor russo do começo do século XX que você nunca ouviu falar só porque o cara escreve sobre os sertões da Sibéria com a mesma maestria do nosso Rosa.

Na semana seguinte, o russo.

Aí alguém fala de Boris Pasternak, outro russo, e o livro/filme Dr. Jivago e o papo fica ao redor de cinemão da era de ouro de Hollywood e acaba na sexta-feira lendo sobre os bastidores das filmagens do Godfather do Copolla. E assiste Pulp Fiction, do Tarantino.

Daquele escritor russo do mês passado, sobrou um filme que foi baseado no livro e foi dirigido pelo Kurosawa. Acha num sebo um de haiku e koans zen budistas e fica flutuando 10 cm acima do nível das colchas. Aproveita e encaixa um Quintana, um Tornaghi e aqueles poemas que o amigo mandou pra você dar uma olhada e soltar uns pitacos.

Iwata shi, Japão. Numa onda entre Guimarães Rosa e Kurosawa.

Termina o Quintana, pensa nos gaúchos e começa a rir com Luiz Fernando, embalado pelas crônicas do João Ubaldo de dias atrás. Depois, ainda gaúcho, tira a poeira do uruguaio Galeano e fortalece seus vínculos com a madre américa. E vai. E volta. Nessas idas, Allen Ginsberg e a melancolia poética do asfalto da outra américa.

No meio da primavera está sentado na varanda gargalhando com aqueles dois Asterix que sempre são a poção mágica.

Axterix chama Baudelaire.

E.

Frio dozinfer parte 2

Vento animal vindo de tudo quanto é lado.
Vento sacana que entra no miolo das roupas até encostar na pele e feito navalha de Plínio, corta as carnes sem dó, sem pensar no calor de um mísero palito de fósforo.

Cheguei em casa agora.
Sai do trampo e fui ali no mercado comprar tomate-cereja.


Naquela geladeira-prateleira de queijos e iogurtes e leites e picles e essas coisas, estava quentinho, aconchegante, quase um spa na Bahia.

Tem a parte dos peixes que no Japão é uma prateleira quilométrica e dava até pra pegar um bronzeado e escolher um sashimi de atum.

Geladeira quente, maravilha.

Peguei-paguei o tomate-cereja em copo - comprei porque estava num copo, claro - e saí para o estacionamento, puta merda, congelei de novo.

Não está nevando, nem com ares de geada, nada disso. E também acho que quando neva o frio não é tão intenso, deve ser porque quase nunca neva por aqui e quando acontece a gente fica todo bobo tirando foto.

E desde novembro, no começo desse inverno eu acho que o inferno é um lugar gelado com todo mundo de sunga e blusa de lã molhada com estalactites caindo na cabeça pela eternidade  gelada.

E olha que eu gosto de frio.
Bem, gostava.

Puta frio dozinfer

Gelo gelado.

Frio pra caralho.

Pra caralho!

Sem essa de noite feliz.

Nesse frio o natal é uma merda de frio,

frio pra caralho.

Vizinhos


É um casal de velhinhos simpáticos e calados que atravessam a rua para cuidar da horta que tem cenouras, nabos, cebolas e berinjelas. De vez em quando eles colocam num cantinho ali e vendem por 100 yenes (2,50 reais) um saquinho com cinco ou seis. É, a vida não anda fácil.

Me encontro com o velhinho nas terças, quando jogamos o lixo queimável. Dizemos apenas bom dia. Algumas vezes, apenas nos cumprimentamos com a cabeça. Ele vem com o carrinho de mão carregando os sacos de lixo, isso já faz alguns meses. Deve ser a dor na coluna, ele tem andado mais curvado ultimamente.

Ele dirige mal, já não enxerga bem. Esse murinho à esquerda com tijolos aparentes tem bons e nítidos riscos na altura de um para-choque.

Quando a velhinha está estacionando o Suzukinho, é melhor dar a volta no quarteirão, principalmente se for à noite. Nas noites de verão quando eu saia mais assiduamente pros rolês de bike, eu a via tentando estacionar, não conseguindo e finalmente telefonando para ele, que saia de casa, vinha até a rua e fazia os sinais de vem e pára até que começassem a discutir sobre os procedimentos de ré e pra que lado do volante girar e dois ou três carros parados esperando pacientemente pelo entrave até que sabiamente, a velhinha deixa o velhinho sentar ao volante e estacionar, raspando o muro, evidentemente.

Numa dessas noites de verão a vi descarregando vasos de ikebanas.

É muito comum nos centros culturais dos bairros acontecerem diversos cursos para os moradores, idosos ou não. São cursos de ikebana, manuseio de computador, ginástica, música, dança havaiana, inglês, outros. Tem até português.

Os preços variam, podem ser o equivalente a quatro ou cinco saquinhos de berinjela por aula. Nesses centro culturais também há quadras poliesportivas e muitos brasileiros alugam para vôlei  basquete e futebol de salão. Não mais que as tais berinjelas por cabeça.

A única ordem pétrea é limpar o local de uso, quadra ou classe, varrer, passar o pano de chão com os rodões, guardar as traves, enrolar as redes e entregar as chaves na hora prevista. Simples como ter os impostos sendo usados de maneira correta pelo estado. Um dia a gente vai entender  melhor esse conceito e aplicar com qualidade no nosso dia-a-dia no Brasil.

Hoje de manhã saí para dar um rolê de bike, apesar do frio e vento, o sol convidava. Na ida, não havia a bandeira japonesa no alpendre da entrada da casa dos velhinhos. Eu já sabia que no dia 23 de dezembro comemora-se o aniversário do Imperador Akihito. Quando voltei, encontrei a bandeira a meio mastro. Fiquei preocupado. Logo pensei na morte do Imperador, no começo do ano ele passou por diversas cirurgias, afinal é um homem de 79 anos, enfim.

Entrei em casa e liguei a tv. Nada.

Depois percebi que a bandeira estava a meio mastro porque eles não alcançam o topo. Simples.

Ansiedade de catraca

Dorme no sábado com o ingresso no carteira e a carteira na calça e a calça na cadeira e confere a carteira na calça na cadeira pela terceira vez pra ver se o ingresso está lá.
Está.
Escolhe a camisa, vai de branca Batavo, pousa suavemente sobre a calça na cadeira.

Dorme.
Acorda domingo e confere a carteira. Tudo em cima, sempre.
Café da manhã, tv ligada, quer saber se tem alguma novidade no trânsito, no tempo, na vida.
Nada, tudo igual a um céu claro,
domingo de restaurantes lotados,
praças e folguedos, parques e algodão doce.
Churras gargalhada e tulipas lotadas.

Pega o metrô com os amigos e os amigos dos amigos do amigo dos amigos.

Cantoria e batucada, em cada coração o guerreiro do cavalo branco matando o dragão.

Cantoria e batucada e batucada e cantoria.

O Zé, o Migué o Mané, o José, o Miguel e o Manuel. Bandeiras! Alvinegras!
Os remos cruzados no brasão das tradições e glórias mil.
O Gavião. As listras paulistas, a âncora vermelha,

1910

O Sport
o Club
o Corinthians
o Paulista

O coração bate tanto que parece um zunido.
Bate a mão na bunda e encontra a carteira e confere se o ingresso está lá.
Na catraca do nosso estádio municipal o zunido está na velocidade da luz, a garganta está seca,
a cabeça sem dono e sei lá.

Passa pelo funil, o brilho que só o Pacaembu tem entra pela retina e vira um grito que vai durar noventa minutos, noventa séculos, noventa mil gols.

Faz coro ao primeiro canto de guerra que ouve, se ajeita onde dá, agora só quer ver o Timão sair do túnel e a vida, bem, por enquanto, deixa pra lá.