DEZEMBRO, ÚLTIMO



Quatro e meia e desperto com nada. Daquele jeito: porta escancarada, janela arreganhada e o céu lilás dizendo todos nós somos lindos.

Tímidos amarelos em mil tons no fim da rua, no começo do horizonte, lá onde é o mar. E o mar me chama.

Nescafé rápido de microondas arranha a garganta junto com o primeiro trago no paieiro.

Rolê rápido pra Basquiat cagar. Cagou, voltou.

Bike, eu, vento e foda-se. É o mar chamando.

Chego aqui seminu e tudo funciona perfeitamente na alma. A máquina da alma pede esse combustível.

Mar. Sal. A vida é besta sim. Mais besta é um não diante desse tesão.

Diga não que eu vou atrás mesmo assim. Diga sim e tudo bem, nos vemos no ano que vem.

Bike amarrada no poste. Mar pequeno de marolas meninas pedindo meus pés. Toma. Toma meu corpo, toma tudo e deixa a poesia, leva um ano de vida e me dá outro que eu me viro em terra firme. Mãe d’água, amém.


Sete e tantos e a cidade desperta. Estou pronto. 

NATAL UM DA ERA DE AQUARIUS


I
Nunca assisti o Roberto na Globo, nem hoje, agora. Mas daqui do quintal, ouvindo a tv, é o mesmo show de sempre.
Sem deméritos por isso. A festa dos funcionários da Globo tem o Rei por protagonista e ele não precisa provar mais nada, canta o que escreveu, set list pra agradar milhões, todo mundo conhece todas. E das antigas, a fase soul, como não gostar?

II
Desde 1989 não passava as festas no Brasil. É o calor, magnânimo calor. Lembro de porres homéricos no inverno japonês. Outros tantos no verão tropical. Não se faz um final de ano só na birita, mas fiz quando o fígado era jovem e prendado. Prendado, nem tanto, mas mais solícito e menos bundão.

III
O Natal não é feriado no Japão, não há tradições cristãs. Passa-se em branco, ou eu o passava. A grande festa é o Ano Novo e é totalmente indoor.  É o frio, magnânimo zero grau.

IV
Voltar pra casa e ver, comer, beber e rir com a família no quintal. Nada mal. É o calor, magnânimo amor.

V
Quero amanhecer 2014 na praia, ver o sol, ver Iemanjá nos cânticos e nos olhares. Todo mundo fica melhor de bermuda, ou pelo menos, sente-se melhor. Então tá, bermuda, cerveja, praia e a sensação de que tudo pode ficar melhor. Parece letra do Jorge Ben. Faltou a morena na canção e isso não é apenas uma licença poética.

VI
Vinde a mim o céu azul, disse a pipa. Ventos fortes do litoral te elevam nas mãos do garoto descalço. Bons ventos me trouxeram aqui a bordo de uma grande pipa com cineminha. Espero nunca mais esquecer esse momento, não do cineminha, mas agora agora aqui. Espero nunca mais ficar longe desse momento.


Bons momentos a todos em 2014.

Minha Rua














Minha rua não tem nada,
Tem a rua,
Tem as casas
E no meio delas
Tem calçada.

Minha rua não tem fronteiras,
Nunca acaba por que começa outra
E mais outra até que acaba no mar
E chega.

Na minha rua passam pessoas,
Carros, cães, vacas,
Cavalos e carroças que me transportam
Para a infância na zona leste
Onde o leite era na garrafa de vidro
E o leiteiro vinha de carroça
Badalando um sino.

Três moleques empinam no vento que vem do mar,
Na minha rua cabe qualquer infância,
pode chegar.

Não necessariamente

Não tinha que ter defeito,
Não tinha lugar no busão,
Não era para ser desse jeito,
Não cabe não.

Não presta, não compra, tá caro,
Não dou, não desço, nem vou,
Não curto, não compartilho, não abro,
Não olha, não olha, não olha.




Cd tesoura

Ver estrelas e não ver mais,
Os moços indo ao trabalho,
Latidos no quarteirão ao lado
E do outro lado o que acontece
Já não sei.

Basquiat madrugada adentro
Comigo no quintal,
Hoje prometi passeio,
Mas tinha futebol.

A música que corta o ar
Também corta o clima
E o clima que corta a alma
Não traduz preocupação.

Pronto, já acabou.

Em precisos momentos
Esse disco ok computer
Da banda que esqueci o nome
Pode ser a coisa mais chata do mundo.

Crise aguda.


PALMAS PRA DEDÉ


                                                 
                                                               




Mal tocou o solo com os pezinhos de felicidades pela casa e disse 


Quero voar





Foi no bailado e aprendeu dos cisnes, palcos e Fred Astaire,



Voou a vida e carregou suas nuvens prediletas 




Para nunca se cansar




E nos fazer sonhar




Em também voar.




Foto: Preta

TEMPEROS


O silêncio para plantar flores,
Voz de trovão para o fim das férias,
 Aula de canto nas cortinas brancas,
Um gol digital no home theater,
Brothers gregorianos na sala ao lado
E os vizinhos discutem o destino de viver.

Dez minutos são 0:10 mas podem ser quinze,
Água mineral engarrafada é natural,
Quase tudo está inacabado numa biblioteca,
Todos nós ultrapassamos pela direita,
Sgt. Pepper’s não é o meu favorito
E palhetas de guitarra foram feitas para sumirem.

Vozes divergem quanto ao preço das compras,
Todos divergem quanto ao preço das compras,
Hoje fui ao porto e vi um barco à deriva,
Enquanto dormimos estamos atentos ao nada,
Tão nada que preenchemos com tudo
E .


Wally?

Where’s Wally?
Está no sul do Cruzeiro do Sul?
Está vendendo poesia para comercial de xampu?
Está escolhendo palavras? Canções? Timidez?
Está incógnito domingo, 
Voando na terça 
E na quinta, francês?

Where’s Wally?
Na pizza, na gaveta, 
Nos detalhes do tatoo?
Num caco de vidro, num canto do elevador, nu?
Tocando piano, perdido no frio, sonhando venenos?


- O Wally? Tá aqui sim.

BOCHECHA ERA O NOME DO SARGENTO


Bochecha era o nome do sargento. Nome mesmo, nome de família, coisa de um ancestral sacana que achou que o filho não era dele porque era muito bochechudo, assumiu a paternidade e deu o sobrenome final de Bochecha, depois abriu a porta, saiu andando e nunca mais foi visto.
Mas o nome ficou como um brasão. Por gerações e gerações respondem:

- Tem gente por aí que se chama Pinto.
- E Sacco? Como que saco? Do Vanzetti.
- E Buceta?

Uma coisa interessante disso tudo é que o sargento Bochecha é realmente bochechudo. Muito. E não é gordo. Mas também tem gordo que não é bochechudo. A bochecha não faz o corpo, não necessariamente, não nesse caso.

Houve uma ocasião no quartel em que o pelotão entrou em ordem e o sargento caminhava de um lado a outro dando instruções. Durante a palestra contou uma piada, todos riram e no meio da gargalhada coletiva alguém gritou FOFÃO. Ele esperou todos pararem de rir e falou:

- Muito bem, senhores, muito bem. Tremendo filho da puta, mas muito bem. Não vou perder meu tempo perguntando qual dos senhores é o filho da puta de hoje. Os senhores sabem. Eu não. Mas eu chego lá. Os senhores estão certos, o silêncio é a melhor tática. Estão perfeitos. Eu digo isso porque não vou mandar me entregarem o filho da puta. Não quero traíras usando esta farda. Devo muito a esta farda, ela é a minha segunda pele. Com esta pele conheci minha namorada que hoje é a minha esposa, com esta pele me casei e vi o parto dos meus três filhos. Com esta pele vi meu mais velho receber o diploma de bacharel em direito e com esta pele verei os outros dois seguirem seus caminhos. Com esta pele estou aqui com os senhores faltando apenas dez minutos para o almoço e todos nós diante de um filho da puta. Pois vamos juntos nos focar neste filho da puta. Respeito a opinião dos senhores quanto ao silêncio. Se eu estivesse ai no meio não delataria um homem que dorme no mesmo alojamento que eu e passa o dia se aprimorando para matar o inimigo. Eu não sou burro. Não sei os senhores. Eu não delataria um homem que atira com balas do tamanho de um dedo indicador. Eu não delataria um homem que não tem nada a perder a não ser a liberdade, mas saibam os senhores que o conceito de liberdade pode ser relativo depois da execução de um ato de vingança. E também não vou mandá-los apontarem juntos para a cara desse filho da puta porque não quero homens fardados unidos numa sem-vergonhice que é a deduragem. Nesta merda só cabe o respeito e a disciplina. Nestas artérias correm respeito e disciplina.
Pois bem, senhores, vamos ao exercício. Espero que não se importem com a hora do recreio. O que é comer? O que não é comer? Hoje não vamos comer nossos almoços porque estaremos juntos nesse sol do caralho fazendo este pequeno exercício. Gomes! Grite FOFÃO!

- Senhor?
Você não me ouviu?
- Ouvi, senhor, mas...
Apenas execute a ordem, Gomes.
- FOFÃO!
Pois bem, quero que todos gargalhem e enquanto gargalham, quero que Gomes grite FOFÃO. Ao sinal de 3.
Um dois três.
O próximo, Ramos, faça a mesma coisa e todos gargalhem.
Agora o Pereira.

Ficaram assim por horas. O sargento pedia para repetirem uma, duas, até cinco vezes. Queria ter certeza, pois a voz era parecida. Sem água, gargantas secas. Os últimos homens estavam roucos de tanto forçarem gargalhadas, não conseguiam mais gritar. Bochecha nunca soube quem foi o filho da puta.


Vinte filhos da puta sabiam. 



Escrever


O Vício
Tem dia que a gente abre os olhos e só pensa em escrever. Não é lubrificar a corrente da bike, nem dar comida aos cachorros. É escrever, apenas escrever, passar a tinta no papel, teclar. Pode até fazer bolinha e jogar fora ou apagar, mas não foi em vão, foi escrito.

As Paredes
As paredes das cidades-livros. Os livros como endereços. Os endereços com reticências, casas metafóricas e os lares com nota explicativa.
Se poesias inteiras fossem escritas nas paredes das cidades, Pessoa caberia em quantos habitantes?
Quantas cidades seriam necessárias para a Paulicéia de Mário?
Dá pra ser gauche na Rua Direita?
De tintas, para Pound, quantos litros?

I Love You
Em Baby, Gal diz: leia na minha camisa i love you.

Blues
Os negros cegos do Delta não liam e nem escreviam. Não sabiam a diferença entre um P e um X. As canções eram feitas para serem ouvidas, decoradas, passadas adiante. Cada um deles carregava tanta dor de outras gerações que mesmo não entendendo quase nada do lamento, descubro no blues que a vida pode ser uma única nota esticada no final de um solo.

Poetas
Podem tudo.




FRANCISCO



Francisco mora só e na praça.
Francisco e eu fumando falando do Rio Grande do Norte.
Francisco pede pra mudar de assunto,
Diz que a mãe ainda mora na mesma roça
Em São Gonçalo que é perto de Natal
E que por conta do progresso
A roça diminuiu.

Francisco tosse e digo que São Gonçalo
É padroeiro dos violeiros,
Meu cigarro apaga,
Um cachorro encosta
Francisco diz esse aí anda comigo
Não tem nome não
Quando tem siri na praia ele sabe
E a gente vai lá.

E voltar pra São Gonçalo?

Hoje não.

AQUELA MÚSICA PARA DESISTIR DE OUVIR MÚSICA

Tava ouvindo o Bando da Lua. Eles acompanharam Carmen Miranda nos EUA por um tempo, mas já eram grandes antes dela.

É um sexteto de cordas e percussão e vozes impecáveis. Tocaram entre 1929 e 1955 com várias formações.

Naquela época gravava-se com um único microfone pendurado no teto. Os instrumentos se distribuíam no ambiente do estúdio de acordo com o volume, tudo junto num único take, na raça, no um dois três. E que quatro.

Gravavam orquestras com apenas um microfone.

Diz a lenda que Toscanini estava ouvindo no rádio uma orquestra americana que ele já conduzira antes. Era um concerto ao vivo. Pelas ondas curtas, detectou um dos violinos desafinado. Alguns anos depois, foi convidado a reger tal orquestra novamente. Lá estava o violinista – que tomou uma bronca.

Com todos os ruídos e imperfeições das transmissões de rádio da época, o maestro ouviu o defeito. E tudo captado por apenas um microfone vindo do teto.

Hoje em dia tem tantos filtros entre os perdigotos no microfone e a mesa de som que vinho vira água quando o som chega aos nossos ouvidos. Ou água vira merda.

Com toda essa onda em cima do Justin Bieber, fui ouvir uma música dele no tube. Nunca tinha ouvido, não por querer. Mas fui.

É ruim. Perto de outros pops de cada verão, ele é muito ruim.

Então não vou gastar mais dedo falando dele.

Mas dá pra dizer que a tecnologia tem ajudado muita gente. Se as gravações continuassem com apenas um microfone, nem penicilina teríamos. Nem velcro ou lojas pet.

O foda é coisa ruim e boba. E isso é a maioria do pop. É Justin, é bobinho, é uma merda.


Falou que não vem mais ao Brasil. Deus te ouça.


QUEM TEM UM QUINTAL, TEM DOIS



Chuva e sol
Sol de arrancar a pele só de olhar
Casamento do espanhol,
E tem um espanhol que mora longe,
E deixa saudades.

Sol e chuva
Chuva com gotas do tamanho de rolhas
Se jogando no infinito
Até caírem ruidosas no telhado, no chão,
E batucarem no casamento da viúva.

De sol a sol sem ver a sombra
Que evapora com os sonhos,
Sem sombra, sem sonhos,
Que homem sou eu que me contento
Com a chuva tropical na cachola fresca?

Chuva de longe lá longe bem longe
Das nuvens coloridas de Tupãs bem loucos,
Do céu de todas nuances milimétricas
Por que tem que ser assim,
E venha!


CANIS ET CIRCENCES

Tem gente cachorro e tem gente gato. E tem gente gato-cachorro. Foram feitos uns pros outros. Tem gente passarinho, mas estes são raros hoje em dia, quase ninguém curte gaiola.

Uma coisa muito comum na minha infância era entrar no apartamento de alguém e se escutar um canto vindo da área de serviços. Sempre no canto perto da janela, tomando sol, diziam. Como se um passarinho triste fosse alegrar aquele pseudo quintalzinho do tamanho de um elevador de hospital. Ou a felicidade suprema de um prisioneiro ser aquele sol babaca vindo através das grades.

Tem gente peixe também. Mas peixe caga muito e é muito sujo. Ele caga dentro da água em que vive e ela nunca é trocada, fica girando naquele filtro que é outra coisa asquerosa. E peixe não abana o rabo quando o dono chega.

Tinha o kinryo do Abelha que ficava contentinho quando ele chegava. Ele disse uma vez e não acreditei. Me levou na casa dele pra provar. Ele nadava mais rapidinho e rebolava, nada mais. Bem, pode ser alegria. Mas dizem que o cérebro desses peixes dourados é tão atrofiado que quando ele está de um lado do aquário, esquece que o outro existe, que tem uma memória de apenas três segundos.

O Abelha era açougueiro num mercado brasileiro no Japão, tinha uma camisa listrada e aquela barriga que deixa o cara meio berinjela, ou seja, uma abelha.

Sou um cara cachorro, daqueles que rolam no chão com o bicho. Isso denota um cachorro-cara.  Sei bem meu papel na relação. O que nunca informaram foi o papel da Basquiat nessa pendenga. Não explicaram a ela que o dono sou eu, que tem uma hierarquia nessa farra.


Mas é farra, chega de escrever. Basquiat, vem!

Sem Chance

Uma frase por dia,
meias palavras,
troca a vírgula de lugar,
meia boca.

Tem dia que não vai, nem vem

Dá vontade de mandar
o texto, personagem, teclado, autor
o inferno
que não são rosas
para o buraco que lhe cagou.


PIPA

Quanto tempo duram os ossos do pipa morto no fio do poste?
Quanto tempo duram o poste e a cidade desses meninos?

O céu e o vento dos meninos dos meninos,
O dia em que um pipa subiu e nunca mais pousou
porque o vento que nunca se esconde à noite
levou o riso acima das tempestades e dos trovões,
e gargalha e voa e fecha os olhos.





A PONTE

O calor brasileiro tem o dom. Tem a mística de ser aqui, inteiro e onipresente. Tem a brisa que já deu samba, bossa nova e rock'n'roll. Tem a sombra e o gole d'água. Tem essa bermuda velha, azul e desbotada.

No calor brasileiro está a calça à altura da canela do mulato lavrador de Portinari e nas coxas brilhantes daquela loura inteirinha feita de sol.

Sem o calor o Brasil seria mais um. Com o calor, o Brasil é o calor. Sem o Brasil, o calor seria um saco. Com saco, o Brasil é maravilhoso. Mas tem que ter saco.

Há muito tempo não mexia no relógio por conta do horário de verão. A última vez foi em 1996, ainda em São Paulo, cheguei em setembro e fiquei até novembro. Adiantei a hora e ao voltar para o Japão o enguiçado não voltava mais a hora. Ficou numa gaveta e lá morreu.

Achei legal esse horário de verão por causa do céu lilás às oito da noite. Pelo dia longo e sabido. E o calor intenso. Muita gente reclama dessa horinha de diferença, mas acho que seria pior mexer nisso no inverno e dar nome tipo "horário de inverno" - ainda que o inverno seja meio placebão em alguns lugares - porque dá um nó na garganta pensar em mudanças no inverno, mesmo de apenas sessenta minutos, porém brusca porque é no inverno.

Fui lá na loja comprar um ventilador. O Bruno sempre muito prestativo e com os descontos que eu choro. Hoje na madrugada estava suando. Suar no Brasil de madrugada é como cantarolar Aquarela do Brasil na fila do supermercado. É uma sensação que acontece no mesmo ponto do cérebro, o ponto dos tesões inusitados.

O peito molhado de suor foi uma das carimbadas de chegada. Dom João VI deve ter sentido isso quando chegou. A idéia de estar e ser quente para sempre parece ser promissora. O verão me contagiou e olha que fui um grande defensor dos longos invernos. Mas passou.

Na volta, passei no bazar do japonês pra comprar o cigarro de palha. Pedi uns barbantes e amarrei o caixotão na cesta da bike.

Parei na foto para telefonar. Tinha um macaco gritando por ali. A foto é no meio da cidade. Viva o verão, pensei.

Mondocani - biografia não-autorizada

Mondocani nasceu japa e vai morrer japa.

No meio encontrou gente bacana e babaca.

Se tem lobo-bobo,
tem baiano bobo também.

Vai catar dólar, Veloso,
que cagada.

Pronto.

Fast food

Hoje fui à caixa econômica pra abrir uma conta e a agência estava impenetrável. Olhei lá dentro a muvuca de empertigados dos dois lados do balcão, desisti da fila na escada, não subi um degrau sequer. O mal humor atravessava os vidros blindados de dentro para fora com as cores típicas do mal humor. Depois da greve de quase um mês, as contas atrasadas, a raiva de voltar ao trabalho por conta de promessas sindicais que não aconteceram, imagina os ânimos. Atravessei a rua e sentei numa lanchonete pra devorar um fast. Peguei uma mesa na calçada de frente à fila na porta da agência. Tinha uma gorda na minha frente e ela ainda estava lá, tão gorda quanto antes. Nada contra gordos dentro e fora de filas, mas são um excelente ponto de referência. A gorda lá e eu engordando cá. Pastel de queijo e uma água mineral. Frugal como são as águas e os pastéis, juntos, beiram a indecência gastronômica.

Todo mundo sabe que um fast pede um refrigerante, um suco de frutas ou uma cerva. Os três juntos ou um de cada vez. Mas se eu tomasse uma birra não ia conseguir pedalar de volta pra casa. Não curto suco de frutas que eu não vi na minha feira e refrigerante, no way - não pelo rato recente, mas pela idéia toda. Aliás, mais ratos virão, me parece óbvio.

Qual o problema da laranja alheia se ele vem com casca, desde a colheita? Não sei, mas acredito.

Gosto dessa pastelaria porque o queijo fica por igual no pastel inteiro e não aquela massa salgada e gordurenta no final das mordidas. Além deles terem uns modelos meia-lua, o que não altera o sabor, perde-se dois cantos, mas fica o fetiche boboca. 

A gorda entrou. Ou desistiu. Não vi o destino de suas banhas. Acabei o rango e fui pro meio da praça pitar um palheiro pra pensar melhor. Passou uma gostosa que sabia que era a gostosa daquele promenade dos olhos. Gostosa mesmo, coisa de apresentadora de programa esportivo.

Se ela comer um pastel o jeans não cabe, pensei. 

Se ela comer um pastel e tomar um refri, que fique nua, não reclamo não.

Também pensei na caixa econômica e pensei numa caixa perdulária e que essa deve estar abarrotada de coisas inúteis. Não tão inúteis como são as instituições financeiras. Devia ter tomado aquela cerva pra pensar melhor ainda, como diz Chico Science. 

Agora é tarde, já enchi o rabo de sorvete de flocos e tá dando um bode. 

Semana que vem volto ao banco. Já saio bêbado de casa e por favor, passa de novo, gostosa.




É nesse sábado!

Na Matriz

Sentado na praça pitando, apareceram dois cegos vindo na minha direção, bengalas nervosas tateando o mundo, vinham conversando. No meio do caminho havia um canteiro onde arrancaram uma árvore, sobrou o buraco, poucos metros de mim.
- Cuidado com o buraco - gritei.
- Obrigado.
Levantei e perguntei onde eles iam.
- Ali na rua Tucuruvi.
- Levo vocês.

- Quem é? É o Sérgio?
- Não, sou o Nei. E você?
- Eu sou Felipe, esse aqui é o Alemão.
- Você é da cidade, Nei?
- Sim, cheguei há poucos meses. E vocês? São daqui?
- Sim, nascemos aqui, quase nunca a gente sai daqui. Também, se sair, não vai adiantar, não íamos ver nada.
Rimos.

Deixei os dois na esquina da rua que iam.
- Obrigado, Nei.
- De nada.
- Mas não é o Sérgio mesmo?
- Não...
- Mas são bem parecidos!


10:15 Saturday Night

Traga profundo e solta na direção da lâmpada porque é assim que ela deixa de ofusca-lo. Dura pouco, o suficiente para levantar e apagar. Na volta para a cama, uma luz atravessou o teto do quarto e isso o fez lembrar que não pagou no balcão de manhã, o café, o pão e esse maço que está no fim. Não foi esse, aquele acabou. Deu o gole de ver fundo de copo, acenou e saiu. O atendente agiu normalmente, já se conhecem, é diário, é igual. Ficou preocupado. E anteontem? E antes disso? Mesmo que isso tenha acontecido, todos esses anos são suficientes para o rapaz dizer que já faz dias que ele não paga o café da manhã. Mas certamente que não é o mesmo rapaz todos esses anos. Tinha aquele que torcia para o Corinthians e para o Palmeiras ao mesmo tempo. Quando o Corinthians jogava contra outro time, torcia para o Corinthians. Assim também com o Palmeiras. Mas quando jogavam entre si, torcia para o Palmeiras.

Toca o telefone. Não atende, não quer falar. Insistem. Ontem viu um mágico no calçadão. Era dos bons. O telefone. O mágico fez umas coisas bacanas com baralhos, plumas e fogos instantâneos. A gente toda aplaudindo. Passou a cartola. Saiu um periquito que deu um voo pelo círculo de gente e pousou no alto da cabeça do mágico. Oh! O tilintar começou. Na hora que passou por ele, jogou a primeira moeda que pegou do bolso. O telefone parou. Se for importante daqui a pouco tocam a campainha, disse em voz alta. Pensou no periquito na cabeça do mágico. Será que ele já cagou ali alguma vez?

10:15 Saturday Night é uma música do Cure.



Cabe um título aqui ainda não

A ideia da grana na mão. A possibilidade da grana na mão. A grana na mão. A grana. Discutir migrações. Povos e povas atravessando fronteiras. Discutir o país em que se vive, que viveu, que nunca viu. Nem discutir. Viver num outro país e nunca aprender o país.

Um Maracanã lotado numa final de copa do mundo. 200 mil pessoas esperando apenas um empate. 1950. Um Maracanã lotado. Lotado e em construção. O pau comendo nas quatro linhas. Obdúlio Varela, Ghiggia e Barbosa. Nomes. Maracanazo. 200 mil.

Duzentos mil brasileiros de todo canto dizendo tchau no aeroporto. Mais de um milhão de abraços no gate, no edge do gate, na frente do gate, dali pra frente, só em frente. Anos 90, anos 0, anos 10. A ideia da grana na mão. A mão. O aperto de mão. O abraço. Um Maracanã lotado de dekasseguis vorazes por felicidade. Dekassegui. Palavra feia. Feia com essas sílabas que não se combinam. Feia. Trabalhador. Pai de família, religioso, alcoólatra, puta, gente de todo tipo, pamonha, todos gostam de pamonhas. Símbolos. Símbolos são tristes, alegres, conformados, solitários. Dekassegui, sua silábica é feia. Eu sou feio, dekassegui uma vez, dekassegui para sempre. Feio e pequeno. A ideia da grana na mão. 12 horas de voo feladaputa apertado, cueca do netinho no vovô. Gado, gado novo. Sons do Brasil. Saudade de tudo, tudo no assovio. 12 horas até a escala. Escala de café fraco, azedo e grátis. O do bom é em dólar, aquele que não tenho. A ideia da grana na mão. A grana, o café. Na mão de quem pode. Sala de fumantes. Saco um Marlboro fedorento e acho que posso ser feliz aqui, ali, lá. Não pude trazer o café fraco até aqui. Proibido comer, proibido beber, proibido fuder.

LA, California e eu pensando que merda eu to fazendo aqui? O paraíso das telas é o cu na realidade.

Ouvindo heavy metal.

Confissão


Burburinho de água de riacho tristonho e zombeteiro,
Água de riacho refletindo solidão e sombras tremulantes.

Pela água o pássaro passa voando no céu,
A solidão do pássaro na água do céu.

O riacho no chão, o pássaro pousa, 
O céu no céu, o pássaro, não.


Clarice e U2

Queria ler e ouvir música ao mesmo tempo, Clarice e U2.

Ler Clarice requer um bocado de atenção, não a acadêmica e esquecível, mas a atenção dos mesmos olhos que veem o mar pela primeira vez.
Cada parágrafo de Clarice, cada virada de ideia, cada virada de página, é um degrau acima numa falível hierarquia humana.


Lê-la é achatar o céu para pousar os pés olhos corpo e deixar que a mente se afeiçoe cada vez mais à magia das palavras gráficas.
Lê-la é evoluir para melhorar a espécie, apreciar o belo não pelo óbvio estético, mas pela satisfação do belo súbito, do maravilhoso inusitado, do que os ingleses chamam de serendipity.


O som do U2 não tem culpa, mas é impossível ficar imune aos timbres da guitarra do The Edge. Ele é um alquimista sonoro-eletrônico, dos bons.

Gostaria que combinasse com a leitura de Clarice, mas a vibração do som nas moléculas de ar ocupam todo o espaço do ambiente ao redor, assim com ler Clarice ocupa todo o espaço do vácuo do ambiente interno. Os ambientes se estranham, uma pena.

Mas há a pena que se empenha em explicar tal pesar. Então um de cada vez, como num jogo de prazeres.