Clarice e U2

Queria ler e ouvir música ao mesmo tempo, Clarice e U2.

Ler Clarice requer um bocado de atenção, não a acadêmica e esquecível, mas a atenção dos mesmos olhos que veem o mar pela primeira vez.
Cada parágrafo de Clarice, cada virada de ideia, cada virada de página, é um degrau acima numa falível hierarquia humana.


Lê-la é achatar o céu para pousar os pés olhos corpo e deixar que a mente se afeiçoe cada vez mais à magia das palavras gráficas.
Lê-la é evoluir para melhorar a espécie, apreciar o belo não pelo óbvio estético, mas pela satisfação do belo súbito, do maravilhoso inusitado, do que os ingleses chamam de serendipity.


O som do U2 não tem culpa, mas é impossível ficar imune aos timbres da guitarra do The Edge. Ele é um alquimista sonoro-eletrônico, dos bons.

Gostaria que combinasse com a leitura de Clarice, mas a vibração do som nas moléculas de ar ocupam todo o espaço do ambiente ao redor, assim com ler Clarice ocupa todo o espaço do vácuo do ambiente interno. Os ambientes se estranham, uma pena.

Mas há a pena que se empenha em explicar tal pesar. Então um de cada vez, como num jogo de prazeres.



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