10:15 Saturday Night

Traga profundo e solta na direção da lâmpada porque é assim que ela deixa de ofusca-lo. Dura pouco, o suficiente para levantar e apagar. Na volta para a cama, uma luz atravessou o teto do quarto e isso o fez lembrar que não pagou no balcão de manhã, o café, o pão e esse maço que está no fim. Não foi esse, aquele acabou. Deu o gole de ver fundo de copo, acenou e saiu. O atendente agiu normalmente, já se conhecem, é diário, é igual. Ficou preocupado. E anteontem? E antes disso? Mesmo que isso tenha acontecido, todos esses anos são suficientes para o rapaz dizer que já faz dias que ele não paga o café da manhã. Mas certamente que não é o mesmo rapaz todos esses anos. Tinha aquele que torcia para o Corinthians e para o Palmeiras ao mesmo tempo. Quando o Corinthians jogava contra outro time, torcia para o Corinthians. Assim também com o Palmeiras. Mas quando jogavam entre si, torcia para o Palmeiras.

Toca o telefone. Não atende, não quer falar. Insistem. Ontem viu um mágico no calçadão. Era dos bons. O telefone. O mágico fez umas coisas bacanas com baralhos, plumas e fogos instantâneos. A gente toda aplaudindo. Passou a cartola. Saiu um periquito que deu um voo pelo círculo de gente e pousou no alto da cabeça do mágico. Oh! O tilintar começou. Na hora que passou por ele, jogou a primeira moeda que pegou do bolso. O telefone parou. Se for importante daqui a pouco tocam a campainha, disse em voz alta. Pensou no periquito na cabeça do mágico. Será que ele já cagou ali alguma vez?

10:15 Saturday Night é uma música do Cure.



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