BOCHECHA ERA O NOME DO SARGENTO


Bochecha era o nome do sargento. Nome mesmo, nome de família, coisa de um ancestral sacana que achou que o filho não era dele porque era muito bochechudo, assumiu a paternidade e deu o sobrenome final de Bochecha, depois abriu a porta, saiu andando e nunca mais foi visto.
Mas o nome ficou como um brasão. Por gerações e gerações respondem:

- Tem gente por aí que se chama Pinto.
- E Sacco? Como que saco? Do Vanzetti.
- E Buceta?

Uma coisa interessante disso tudo é que o sargento Bochecha é realmente bochechudo. Muito. E não é gordo. Mas também tem gordo que não é bochechudo. A bochecha não faz o corpo, não necessariamente, não nesse caso.

Houve uma ocasião no quartel em que o pelotão entrou em ordem e o sargento caminhava de um lado a outro dando instruções. Durante a palestra contou uma piada, todos riram e no meio da gargalhada coletiva alguém gritou FOFÃO. Ele esperou todos pararem de rir e falou:

- Muito bem, senhores, muito bem. Tremendo filho da puta, mas muito bem. Não vou perder meu tempo perguntando qual dos senhores é o filho da puta de hoje. Os senhores sabem. Eu não. Mas eu chego lá. Os senhores estão certos, o silêncio é a melhor tática. Estão perfeitos. Eu digo isso porque não vou mandar me entregarem o filho da puta. Não quero traíras usando esta farda. Devo muito a esta farda, ela é a minha segunda pele. Com esta pele conheci minha namorada que hoje é a minha esposa, com esta pele me casei e vi o parto dos meus três filhos. Com esta pele vi meu mais velho receber o diploma de bacharel em direito e com esta pele verei os outros dois seguirem seus caminhos. Com esta pele estou aqui com os senhores faltando apenas dez minutos para o almoço e todos nós diante de um filho da puta. Pois vamos juntos nos focar neste filho da puta. Respeito a opinião dos senhores quanto ao silêncio. Se eu estivesse ai no meio não delataria um homem que dorme no mesmo alojamento que eu e passa o dia se aprimorando para matar o inimigo. Eu não sou burro. Não sei os senhores. Eu não delataria um homem que atira com balas do tamanho de um dedo indicador. Eu não delataria um homem que não tem nada a perder a não ser a liberdade, mas saibam os senhores que o conceito de liberdade pode ser relativo depois da execução de um ato de vingança. E também não vou mandá-los apontarem juntos para a cara desse filho da puta porque não quero homens fardados unidos numa sem-vergonhice que é a deduragem. Nesta merda só cabe o respeito e a disciplina. Nestas artérias correm respeito e disciplina.
Pois bem, senhores, vamos ao exercício. Espero que não se importem com a hora do recreio. O que é comer? O que não é comer? Hoje não vamos comer nossos almoços porque estaremos juntos nesse sol do caralho fazendo este pequeno exercício. Gomes! Grite FOFÃO!

- Senhor?
Você não me ouviu?
- Ouvi, senhor, mas...
Apenas execute a ordem, Gomes.
- FOFÃO!
Pois bem, quero que todos gargalhem e enquanto gargalham, quero que Gomes grite FOFÃO. Ao sinal de 3.
Um dois três.
O próximo, Ramos, faça a mesma coisa e todos gargalhem.
Agora o Pereira.

Ficaram assim por horas. O sargento pedia para repetirem uma, duas, até cinco vezes. Queria ter certeza, pois a voz era parecida. Sem água, gargantas secas. Os últimos homens estavam roucos de tanto forçarem gargalhadas, não conseguiam mais gritar. Bochecha nunca soube quem foi o filho da puta.


Vinte filhos da puta sabiam. 



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