CANIS ET CIRCENCES

Tem gente cachorro e tem gente gato. E tem gente gato-cachorro. Foram feitos uns pros outros. Tem gente passarinho, mas estes são raros hoje em dia, quase ninguém curte gaiola.

Uma coisa muito comum na minha infância era entrar no apartamento de alguém e se escutar um canto vindo da área de serviços. Sempre no canto perto da janela, tomando sol, diziam. Como se um passarinho triste fosse alegrar aquele pseudo quintalzinho do tamanho de um elevador de hospital. Ou a felicidade suprema de um prisioneiro ser aquele sol babaca vindo através das grades.

Tem gente peixe também. Mas peixe caga muito e é muito sujo. Ele caga dentro da água em que vive e ela nunca é trocada, fica girando naquele filtro que é outra coisa asquerosa. E peixe não abana o rabo quando o dono chega.

Tinha o kinryo do Abelha que ficava contentinho quando ele chegava. Ele disse uma vez e não acreditei. Me levou na casa dele pra provar. Ele nadava mais rapidinho e rebolava, nada mais. Bem, pode ser alegria. Mas dizem que o cérebro desses peixes dourados é tão atrofiado que quando ele está de um lado do aquário, esquece que o outro existe, que tem uma memória de apenas três segundos.

O Abelha era açougueiro num mercado brasileiro no Japão, tinha uma camisa listrada e aquela barriga que deixa o cara meio berinjela, ou seja, uma abelha.

Sou um cara cachorro, daqueles que rolam no chão com o bicho. Isso denota um cachorro-cara.  Sei bem meu papel na relação. O que nunca informaram foi o papel da Basquiat nessa pendenga. Não explicaram a ela que o dono sou eu, que tem uma hierarquia nessa farra.


Mas é farra, chega de escrever. Basquiat, vem!

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