PIPA

Quanto tempo duram os ossos do pipa morto no fio do poste?
Quanto tempo duram o poste e a cidade desses meninos?

O céu e o vento dos meninos dos meninos,
O dia em que um pipa subiu e nunca mais pousou
porque o vento que nunca se esconde à noite
levou o riso acima das tempestades e dos trovões,
e gargalha e voa e fecha os olhos.





A PONTE

O calor brasileiro tem o dom. Tem a mística de ser aqui, inteiro e onipresente. Tem a brisa que já deu samba, bossa nova e rock'n'roll. Tem a sombra e o gole d'água. Tem essa bermuda velha, azul e desbotada.

No calor brasileiro está a calça à altura da canela do mulato lavrador de Portinari e nas coxas brilhantes daquela loura inteirinha feita de sol.

Sem o calor o Brasil seria mais um. Com o calor, o Brasil é o calor. Sem o Brasil, o calor seria um saco. Com saco, o Brasil é maravilhoso. Mas tem que ter saco.

Há muito tempo não mexia no relógio por conta do horário de verão. A última vez foi em 1996, ainda em São Paulo, cheguei em setembro e fiquei até novembro. Adiantei a hora e ao voltar para o Japão o enguiçado não voltava mais a hora. Ficou numa gaveta e lá morreu.

Achei legal esse horário de verão por causa do céu lilás às oito da noite. Pelo dia longo e sabido. E o calor intenso. Muita gente reclama dessa horinha de diferença, mas acho que seria pior mexer nisso no inverno e dar nome tipo "horário de inverno" - ainda que o inverno seja meio placebão em alguns lugares - porque dá um nó na garganta pensar em mudanças no inverno, mesmo de apenas sessenta minutos, porém brusca porque é no inverno.

Fui lá na loja comprar um ventilador. O Bruno sempre muito prestativo e com os descontos que eu choro. Hoje na madrugada estava suando. Suar no Brasil de madrugada é como cantarolar Aquarela do Brasil na fila do supermercado. É uma sensação que acontece no mesmo ponto do cérebro, o ponto dos tesões inusitados.

O peito molhado de suor foi uma das carimbadas de chegada. Dom João VI deve ter sentido isso quando chegou. A idéia de estar e ser quente para sempre parece ser promissora. O verão me contagiou e olha que fui um grande defensor dos longos invernos. Mas passou.

Na volta, passei no bazar do japonês pra comprar o cigarro de palha. Pedi uns barbantes e amarrei o caixotão na cesta da bike.

Parei na foto para telefonar. Tinha um macaco gritando por ali. A foto é no meio da cidade. Viva o verão, pensei.

Mondocani - biografia não-autorizada

Mondocani nasceu japa e vai morrer japa.

No meio encontrou gente bacana e babaca.

Se tem lobo-bobo,
tem baiano bobo também.

Vai catar dólar, Veloso,
que cagada.

Pronto.

Fast food

Hoje fui à caixa econômica pra abrir uma conta e a agência estava impenetrável. Olhei lá dentro a muvuca de empertigados dos dois lados do balcão, desisti da fila na escada, não subi um degrau sequer. O mal humor atravessava os vidros blindados de dentro para fora com as cores típicas do mal humor. Depois da greve de quase um mês, as contas atrasadas, a raiva de voltar ao trabalho por conta de promessas sindicais que não aconteceram, imagina os ânimos. Atravessei a rua e sentei numa lanchonete pra devorar um fast. Peguei uma mesa na calçada de frente à fila na porta da agência. Tinha uma gorda na minha frente e ela ainda estava lá, tão gorda quanto antes. Nada contra gordos dentro e fora de filas, mas são um excelente ponto de referência. A gorda lá e eu engordando cá. Pastel de queijo e uma água mineral. Frugal como são as águas e os pastéis, juntos, beiram a indecência gastronômica.

Todo mundo sabe que um fast pede um refrigerante, um suco de frutas ou uma cerva. Os três juntos ou um de cada vez. Mas se eu tomasse uma birra não ia conseguir pedalar de volta pra casa. Não curto suco de frutas que eu não vi na minha feira e refrigerante, no way - não pelo rato recente, mas pela idéia toda. Aliás, mais ratos virão, me parece óbvio.

Qual o problema da laranja alheia se ele vem com casca, desde a colheita? Não sei, mas acredito.

Gosto dessa pastelaria porque o queijo fica por igual no pastel inteiro e não aquela massa salgada e gordurenta no final das mordidas. Além deles terem uns modelos meia-lua, o que não altera o sabor, perde-se dois cantos, mas fica o fetiche boboca. 

A gorda entrou. Ou desistiu. Não vi o destino de suas banhas. Acabei o rango e fui pro meio da praça pitar um palheiro pra pensar melhor. Passou uma gostosa que sabia que era a gostosa daquele promenade dos olhos. Gostosa mesmo, coisa de apresentadora de programa esportivo.

Se ela comer um pastel o jeans não cabe, pensei. 

Se ela comer um pastel e tomar um refri, que fique nua, não reclamo não.

Também pensei na caixa econômica e pensei numa caixa perdulária e que essa deve estar abarrotada de coisas inúteis. Não tão inúteis como são as instituições financeiras. Devia ter tomado aquela cerva pra pensar melhor ainda, como diz Chico Science. 

Agora é tarde, já enchi o rabo de sorvete de flocos e tá dando um bode. 

Semana que vem volto ao banco. Já saio bêbado de casa e por favor, passa de novo, gostosa.




É nesse sábado!

Na Matriz

Sentado na praça pitando, apareceram dois cegos vindo na minha direção, bengalas nervosas tateando o mundo, vinham conversando. No meio do caminho havia um canteiro onde arrancaram uma árvore, sobrou o buraco, poucos metros de mim.
- Cuidado com o buraco - gritei.
- Obrigado.
Levantei e perguntei onde eles iam.
- Ali na rua Tucuruvi.
- Levo vocês.

- Quem é? É o Sérgio?
- Não, sou o Nei. E você?
- Eu sou Felipe, esse aqui é o Alemão.
- Você é da cidade, Nei?
- Sim, cheguei há poucos meses. E vocês? São daqui?
- Sim, nascemos aqui, quase nunca a gente sai daqui. Também, se sair, não vai adiantar, não íamos ver nada.
Rimos.

Deixei os dois na esquina da rua que iam.
- Obrigado, Nei.
- De nada.
- Mas não é o Sérgio mesmo?
- Não...
- Mas são bem parecidos!


10:15 Saturday Night

Traga profundo e solta na direção da lâmpada porque é assim que ela deixa de ofusca-lo. Dura pouco, o suficiente para levantar e apagar. Na volta para a cama, uma luz atravessou o teto do quarto e isso o fez lembrar que não pagou no balcão de manhã, o café, o pão e esse maço que está no fim. Não foi esse, aquele acabou. Deu o gole de ver fundo de copo, acenou e saiu. O atendente agiu normalmente, já se conhecem, é diário, é igual. Ficou preocupado. E anteontem? E antes disso? Mesmo que isso tenha acontecido, todos esses anos são suficientes para o rapaz dizer que já faz dias que ele não paga o café da manhã. Mas certamente que não é o mesmo rapaz todos esses anos. Tinha aquele que torcia para o Corinthians e para o Palmeiras ao mesmo tempo. Quando o Corinthians jogava contra outro time, torcia para o Corinthians. Assim também com o Palmeiras. Mas quando jogavam entre si, torcia para o Palmeiras.

Toca o telefone. Não atende, não quer falar. Insistem. Ontem viu um mágico no calçadão. Era dos bons. O telefone. O mágico fez umas coisas bacanas com baralhos, plumas e fogos instantâneos. A gente toda aplaudindo. Passou a cartola. Saiu um periquito que deu um voo pelo círculo de gente e pousou no alto da cabeça do mágico. Oh! O tilintar começou. Na hora que passou por ele, jogou a primeira moeda que pegou do bolso. O telefone parou. Se for importante daqui a pouco tocam a campainha, disse em voz alta. Pensou no periquito na cabeça do mágico. Será que ele já cagou ali alguma vez?

10:15 Saturday Night é uma música do Cure.



Cabe um título aqui ainda não

A ideia da grana na mão. A possibilidade da grana na mão. A grana na mão. A grana. Discutir migrações. Povos e povas atravessando fronteiras. Discutir o país em que se vive, que viveu, que nunca viu. Nem discutir. Viver num outro país e nunca aprender o país.

Um Maracanã lotado numa final de copa do mundo. 200 mil pessoas esperando apenas um empate. 1950. Um Maracanã lotado. Lotado e em construção. O pau comendo nas quatro linhas. Obdúlio Varela, Ghiggia e Barbosa. Nomes. Maracanazo. 200 mil.

Duzentos mil brasileiros de todo canto dizendo tchau no aeroporto. Mais de um milhão de abraços no gate, no edge do gate, na frente do gate, dali pra frente, só em frente. Anos 90, anos 0, anos 10. A ideia da grana na mão. A mão. O aperto de mão. O abraço. Um Maracanã lotado de dekasseguis vorazes por felicidade. Dekassegui. Palavra feia. Feia com essas sílabas que não se combinam. Feia. Trabalhador. Pai de família, religioso, alcoólatra, puta, gente de todo tipo, pamonha, todos gostam de pamonhas. Símbolos. Símbolos são tristes, alegres, conformados, solitários. Dekassegui, sua silábica é feia. Eu sou feio, dekassegui uma vez, dekassegui para sempre. Feio e pequeno. A ideia da grana na mão. 12 horas de voo feladaputa apertado, cueca do netinho no vovô. Gado, gado novo. Sons do Brasil. Saudade de tudo, tudo no assovio. 12 horas até a escala. Escala de café fraco, azedo e grátis. O do bom é em dólar, aquele que não tenho. A ideia da grana na mão. A grana, o café. Na mão de quem pode. Sala de fumantes. Saco um Marlboro fedorento e acho que posso ser feliz aqui, ali, lá. Não pude trazer o café fraco até aqui. Proibido comer, proibido beber, proibido fuder.

LA, California e eu pensando que merda eu to fazendo aqui? O paraíso das telas é o cu na realidade.

Ouvindo heavy metal.