TEMPEROS


O silêncio para plantar flores,
Voz de trovão para o fim das férias,
 Aula de canto nas cortinas brancas,
Um gol digital no home theater,
Brothers gregorianos na sala ao lado
E os vizinhos discutem o destino de viver.

Dez minutos são 0:10 mas podem ser quinze,
Água mineral engarrafada é natural,
Quase tudo está inacabado numa biblioteca,
Todos nós ultrapassamos pela direita,
Sgt. Pepper’s não é o meu favorito
E palhetas de guitarra foram feitas para sumirem.

Vozes divergem quanto ao preço das compras,
Todos divergem quanto ao preço das compras,
Hoje fui ao porto e vi um barco à deriva,
Enquanto dormimos estamos atentos ao nada,
Tão nada que preenchemos com tudo
E .


Wally?

Where’s Wally?
Está no sul do Cruzeiro do Sul?
Está vendendo poesia para comercial de xampu?
Está escolhendo palavras? Canções? Timidez?
Está incógnito domingo, 
Voando na terça 
E na quinta, francês?

Where’s Wally?
Na pizza, na gaveta, 
Nos detalhes do tatoo?
Num caco de vidro, num canto do elevador, nu?
Tocando piano, perdido no frio, sonhando venenos?


- O Wally? Tá aqui sim.

BOCHECHA ERA O NOME DO SARGENTO


Bochecha era o nome do sargento. Nome mesmo, nome de família, coisa de um ancestral sacana que achou que o filho não era dele porque era muito bochechudo, assumiu a paternidade e deu o sobrenome final de Bochecha, depois abriu a porta, saiu andando e nunca mais foi visto.
Mas o nome ficou como um brasão. Por gerações e gerações respondem:

- Tem gente por aí que se chama Pinto.
- E Sacco? Como que saco? Do Vanzetti.
- E Buceta?

Uma coisa interessante disso tudo é que o sargento Bochecha é realmente bochechudo. Muito. E não é gordo. Mas também tem gordo que não é bochechudo. A bochecha não faz o corpo, não necessariamente, não nesse caso.

Houve uma ocasião no quartel em que o pelotão entrou em ordem e o sargento caminhava de um lado a outro dando instruções. Durante a palestra contou uma piada, todos riram e no meio da gargalhada coletiva alguém gritou FOFÃO. Ele esperou todos pararem de rir e falou:

- Muito bem, senhores, muito bem. Tremendo filho da puta, mas muito bem. Não vou perder meu tempo perguntando qual dos senhores é o filho da puta de hoje. Os senhores sabem. Eu não. Mas eu chego lá. Os senhores estão certos, o silêncio é a melhor tática. Estão perfeitos. Eu digo isso porque não vou mandar me entregarem o filho da puta. Não quero traíras usando esta farda. Devo muito a esta farda, ela é a minha segunda pele. Com esta pele conheci minha namorada que hoje é a minha esposa, com esta pele me casei e vi o parto dos meus três filhos. Com esta pele vi meu mais velho receber o diploma de bacharel em direito e com esta pele verei os outros dois seguirem seus caminhos. Com esta pele estou aqui com os senhores faltando apenas dez minutos para o almoço e todos nós diante de um filho da puta. Pois vamos juntos nos focar neste filho da puta. Respeito a opinião dos senhores quanto ao silêncio. Se eu estivesse ai no meio não delataria um homem que dorme no mesmo alojamento que eu e passa o dia se aprimorando para matar o inimigo. Eu não sou burro. Não sei os senhores. Eu não delataria um homem que atira com balas do tamanho de um dedo indicador. Eu não delataria um homem que não tem nada a perder a não ser a liberdade, mas saibam os senhores que o conceito de liberdade pode ser relativo depois da execução de um ato de vingança. E também não vou mandá-los apontarem juntos para a cara desse filho da puta porque não quero homens fardados unidos numa sem-vergonhice que é a deduragem. Nesta merda só cabe o respeito e a disciplina. Nestas artérias correm respeito e disciplina.
Pois bem, senhores, vamos ao exercício. Espero que não se importem com a hora do recreio. O que é comer? O que não é comer? Hoje não vamos comer nossos almoços porque estaremos juntos nesse sol do caralho fazendo este pequeno exercício. Gomes! Grite FOFÃO!

- Senhor?
Você não me ouviu?
- Ouvi, senhor, mas...
Apenas execute a ordem, Gomes.
- FOFÃO!
Pois bem, quero que todos gargalhem e enquanto gargalham, quero que Gomes grite FOFÃO. Ao sinal de 3.
Um dois três.
O próximo, Ramos, faça a mesma coisa e todos gargalhem.
Agora o Pereira.

Ficaram assim por horas. O sargento pedia para repetirem uma, duas, até cinco vezes. Queria ter certeza, pois a voz era parecida. Sem água, gargantas secas. Os últimos homens estavam roucos de tanto forçarem gargalhadas, não conseguiam mais gritar. Bochecha nunca soube quem foi o filho da puta.


Vinte filhos da puta sabiam. 



Escrever


O Vício
Tem dia que a gente abre os olhos e só pensa em escrever. Não é lubrificar a corrente da bike, nem dar comida aos cachorros. É escrever, apenas escrever, passar a tinta no papel, teclar. Pode até fazer bolinha e jogar fora ou apagar, mas não foi em vão, foi escrito.

As Paredes
As paredes das cidades-livros. Os livros como endereços. Os endereços com reticências, casas metafóricas e os lares com nota explicativa.
Se poesias inteiras fossem escritas nas paredes das cidades, Pessoa caberia em quantos habitantes?
Quantas cidades seriam necessárias para a Paulicéia de Mário?
Dá pra ser gauche na Rua Direita?
De tintas, para Pound, quantos litros?

I Love You
Em Baby, Gal diz: leia na minha camisa i love you.

Blues
Os negros cegos do Delta não liam e nem escreviam. Não sabiam a diferença entre um P e um X. As canções eram feitas para serem ouvidas, decoradas, passadas adiante. Cada um deles carregava tanta dor de outras gerações que mesmo não entendendo quase nada do lamento, descubro no blues que a vida pode ser uma única nota esticada no final de um solo.

Poetas
Podem tudo.




FRANCISCO



Francisco mora só e na praça.
Francisco e eu fumando falando do Rio Grande do Norte.
Francisco pede pra mudar de assunto,
Diz que a mãe ainda mora na mesma roça
Em São Gonçalo que é perto de Natal
E que por conta do progresso
A roça diminuiu.

Francisco tosse e digo que São Gonçalo
É padroeiro dos violeiros,
Meu cigarro apaga,
Um cachorro encosta
Francisco diz esse aí anda comigo
Não tem nome não
Quando tem siri na praia ele sabe
E a gente vai lá.

E voltar pra São Gonçalo?

Hoje não.

AQUELA MÚSICA PARA DESISTIR DE OUVIR MÚSICA

Tava ouvindo o Bando da Lua. Eles acompanharam Carmen Miranda nos EUA por um tempo, mas já eram grandes antes dela.

É um sexteto de cordas e percussão e vozes impecáveis. Tocaram entre 1929 e 1955 com várias formações.

Naquela época gravava-se com um único microfone pendurado no teto. Os instrumentos se distribuíam no ambiente do estúdio de acordo com o volume, tudo junto num único take, na raça, no um dois três. E que quatro.

Gravavam orquestras com apenas um microfone.

Diz a lenda que Toscanini estava ouvindo no rádio uma orquestra americana que ele já conduzira antes. Era um concerto ao vivo. Pelas ondas curtas, detectou um dos violinos desafinado. Alguns anos depois, foi convidado a reger tal orquestra novamente. Lá estava o violinista – que tomou uma bronca.

Com todos os ruídos e imperfeições das transmissões de rádio da época, o maestro ouviu o defeito. E tudo captado por apenas um microfone vindo do teto.

Hoje em dia tem tantos filtros entre os perdigotos no microfone e a mesa de som que vinho vira água quando o som chega aos nossos ouvidos. Ou água vira merda.

Com toda essa onda em cima do Justin Bieber, fui ouvir uma música dele no tube. Nunca tinha ouvido, não por querer. Mas fui.

É ruim. Perto de outros pops de cada verão, ele é muito ruim.

Então não vou gastar mais dedo falando dele.

Mas dá pra dizer que a tecnologia tem ajudado muita gente. Se as gravações continuassem com apenas um microfone, nem penicilina teríamos. Nem velcro ou lojas pet.

O foda é coisa ruim e boba. E isso é a maioria do pop. É Justin, é bobinho, é uma merda.


Falou que não vem mais ao Brasil. Deus te ouça.


QUEM TEM UM QUINTAL, TEM DOIS



Chuva e sol
Sol de arrancar a pele só de olhar
Casamento do espanhol,
E tem um espanhol que mora longe,
E deixa saudades.

Sol e chuva
Chuva com gotas do tamanho de rolhas
Se jogando no infinito
Até caírem ruidosas no telhado, no chão,
E batucarem no casamento da viúva.

De sol a sol sem ver a sombra
Que evapora com os sonhos,
Sem sombra, sem sonhos,
Que homem sou eu que me contento
Com a chuva tropical na cachola fresca?

Chuva de longe lá longe bem longe
Das nuvens coloridas de Tupãs bem loucos,
Do céu de todas nuances milimétricas
Por que tem que ser assim,
E venha!


CANIS ET CIRCENCES

Tem gente cachorro e tem gente gato. E tem gente gato-cachorro. Foram feitos uns pros outros. Tem gente passarinho, mas estes são raros hoje em dia, quase ninguém curte gaiola.

Uma coisa muito comum na minha infância era entrar no apartamento de alguém e se escutar um canto vindo da área de serviços. Sempre no canto perto da janela, tomando sol, diziam. Como se um passarinho triste fosse alegrar aquele pseudo quintalzinho do tamanho de um elevador de hospital. Ou a felicidade suprema de um prisioneiro ser aquele sol babaca vindo através das grades.

Tem gente peixe também. Mas peixe caga muito e é muito sujo. Ele caga dentro da água em que vive e ela nunca é trocada, fica girando naquele filtro que é outra coisa asquerosa. E peixe não abana o rabo quando o dono chega.

Tinha o kinryo do Abelha que ficava contentinho quando ele chegava. Ele disse uma vez e não acreditei. Me levou na casa dele pra provar. Ele nadava mais rapidinho e rebolava, nada mais. Bem, pode ser alegria. Mas dizem que o cérebro desses peixes dourados é tão atrofiado que quando ele está de um lado do aquário, esquece que o outro existe, que tem uma memória de apenas três segundos.

O Abelha era açougueiro num mercado brasileiro no Japão, tinha uma camisa listrada e aquela barriga que deixa o cara meio berinjela, ou seja, uma abelha.

Sou um cara cachorro, daqueles que rolam no chão com o bicho. Isso denota um cachorro-cara.  Sei bem meu papel na relação. O que nunca informaram foi o papel da Basquiat nessa pendenga. Não explicaram a ela que o dono sou eu, que tem uma hierarquia nessa farra.


Mas é farra, chega de escrever. Basquiat, vem!

Sem Chance

Uma frase por dia,
meias palavras,
troca a vírgula de lugar,
meia boca.

Tem dia que não vai, nem vem

Dá vontade de mandar
o texto, personagem, teclado, autor
o inferno
que não são rosas
para o buraco que lhe cagou.