DEZEMBRO, ÚLTIMO



Quatro e meia e desperto com nada. Daquele jeito: porta escancarada, janela arreganhada e o céu lilás dizendo todos nós somos lindos.

Tímidos amarelos em mil tons no fim da rua, no começo do horizonte, lá onde é o mar. E o mar me chama.

Nescafé rápido de microondas arranha a garganta junto com o primeiro trago no paieiro.

Rolê rápido pra Basquiat cagar. Cagou, voltou.

Bike, eu, vento e foda-se. É o mar chamando.

Chego aqui seminu e tudo funciona perfeitamente na alma. A máquina da alma pede esse combustível.

Mar. Sal. A vida é besta sim. Mais besta é um não diante desse tesão.

Diga não que eu vou atrás mesmo assim. Diga sim e tudo bem, nos vemos no ano que vem.

Bike amarrada no poste. Mar pequeno de marolas meninas pedindo meus pés. Toma. Toma meu corpo, toma tudo e deixa a poesia, leva um ano de vida e me dá outro que eu me viro em terra firme. Mãe d’água, amém.


Sete e tantos e a cidade desperta. Estou pronto. 

NATAL UM DA ERA DE AQUARIUS


I
Nunca assisti o Roberto na Globo, nem hoje, agora. Mas daqui do quintal, ouvindo a tv, é o mesmo show de sempre.
Sem deméritos por isso. A festa dos funcionários da Globo tem o Rei por protagonista e ele não precisa provar mais nada, canta o que escreveu, set list pra agradar milhões, todo mundo conhece todas. E das antigas, a fase soul, como não gostar?

II
Desde 1989 não passava as festas no Brasil. É o calor, magnânimo calor. Lembro de porres homéricos no inverno japonês. Outros tantos no verão tropical. Não se faz um final de ano só na birita, mas fiz quando o fígado era jovem e prendado. Prendado, nem tanto, mas mais solícito e menos bundão.

III
O Natal não é feriado no Japão, não há tradições cristãs. Passa-se em branco, ou eu o passava. A grande festa é o Ano Novo e é totalmente indoor.  É o frio, magnânimo zero grau.

IV
Voltar pra casa e ver, comer, beber e rir com a família no quintal. Nada mal. É o calor, magnânimo amor.

V
Quero amanhecer 2014 na praia, ver o sol, ver Iemanjá nos cânticos e nos olhares. Todo mundo fica melhor de bermuda, ou pelo menos, sente-se melhor. Então tá, bermuda, cerveja, praia e a sensação de que tudo pode ficar melhor. Parece letra do Jorge Ben. Faltou a morena na canção e isso não é apenas uma licença poética.

VI
Vinde a mim o céu azul, disse a pipa. Ventos fortes do litoral te elevam nas mãos do garoto descalço. Bons ventos me trouxeram aqui a bordo de uma grande pipa com cineminha. Espero nunca mais esquecer esse momento, não do cineminha, mas agora agora aqui. Espero nunca mais ficar longe desse momento.


Bons momentos a todos em 2014.

Minha Rua














Minha rua não tem nada,
Tem a rua,
Tem as casas
E no meio delas
Tem calçada.

Minha rua não tem fronteiras,
Nunca acaba por que começa outra
E mais outra até que acaba no mar
E chega.

Na minha rua passam pessoas,
Carros, cães, vacas,
Cavalos e carroças que me transportam
Para a infância na zona leste
Onde o leite era na garrafa de vidro
E o leiteiro vinha de carroça
Badalando um sino.

Três moleques empinam no vento que vem do mar,
Na minha rua cabe qualquer infância,
pode chegar.

Não necessariamente

Não tinha que ter defeito,
Não tinha lugar no busão,
Não era para ser desse jeito,
Não cabe não.

Não presta, não compra, tá caro,
Não dou, não desço, nem vou,
Não curto, não compartilho, não abro,
Não olha, não olha, não olha.




Cd tesoura

Ver estrelas e não ver mais,
Os moços indo ao trabalho,
Latidos no quarteirão ao lado
E do outro lado o que acontece
Já não sei.

Basquiat madrugada adentro
Comigo no quintal,
Hoje prometi passeio,
Mas tinha futebol.

A música que corta o ar
Também corta o clima
E o clima que corta a alma
Não traduz preocupação.

Pronto, já acabou.

Em precisos momentos
Esse disco ok computer
Da banda que esqueci o nome
Pode ser a coisa mais chata do mundo.

Crise aguda.


PALMAS PRA DEDÉ


                                                 
                                                               




Mal tocou o solo com os pezinhos de felicidades pela casa e disse 


Quero voar





Foi no bailado e aprendeu dos cisnes, palcos e Fred Astaire,



Voou a vida e carregou suas nuvens prediletas 




Para nunca se cansar




E nos fazer sonhar




Em também voar.




Foto: Preta